Todo vícios é o romance em que Maitê Proença larga a memória disfarçada e arma um caso de amor contemporâneo, com nome, ofício e vício à vista. Stella é atriz e escultora, perto dos quarenta, profissionalmente resolvida e emocionalmente exposta. João é publicitário, cinquentão, descrito pela própria sinopse como um homem de beleza escassa e dependente de remédios tarja preta. O encontro dos dois não promete final de novela. Promete atrito.
A Record publicou o livro em 2014. O Estadão, na véspera do lançamento na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo, resumiu o eixo: os apuros de uma paixão sustentada pela internet. Maitê, naquela entrevista, definiu o tema como os problemas de uma relação amorosa. A frase é larga. O livro a estreita. A conversa entre Stella e João escorrega para a mensagem de celular, e a superfície do contato substitui o que um diálogo presencial ainda obrigaria a dizer.
O que a trama observa
A sinopse da editora alterna o ponto de vista dos dois. Stella tenta entender se João se dopa nas caladas, se odeia o trabalho, se a dependência é o segredo que ele não entrega. João não é vilão de folhetim nem prêmio de consolação. É um homem cuja química, no sentido literal dos comprimidos, compete com a presença dela. O romance usa esse desequilíbrio para falar de um tipo de vínculo que a década de 2010 já reconhecia: gente que se escreve o tempo todo e se encontra pouco.
Há ainda um tempero de suspense, anunciado pela Record, que impede a leitura de virar só ensaio sobre namoro digital. O livro quer tensão de trama, não só diagnóstico de época. Quem espera crônica no estilo da coluna da Época encontra outra ferramenta. Todo vícios é romance, o segundo dela nessa forma, depois de Uma vida inventada.
Onde o livro cabe na carreira
O ano de 2014 também é o de Kitty Santana, personagem de Maitê em Alto Astral, na Globo. A coincidência de calendário ajuda a ler o projeto: enquanto a novela pedia uma figura de elenco, a Record punha nas livrarias uma autora que já não dependia da ficha de televisão para existir em letra impressa. Todo vícios é o livro que marca essa segunda etapa com enredo próprio, elenco inventado e editora diferente da Agir, casa de Uma vida inventada.
O público não é o fã que busca a foto da cachoeira. É o leitor de romance brasileiro interessado em maturidade, desejo e em como o vício — de remédio, de mensagem, de rotina — organiza uma casa sem que ninguém faça um discurso a respeito. A protagonista ser atriz não transforma o livro em chave da biografia de Maitê. É um ofício que ela conhece por dentro, usado como matéria de personagem.
- Autora: Maitê Proença.
- Editora e ano: Record, 2014.
- Forma: romance, com dois pontos de vista.
- Núcleo: Stella e João, um caso em que a mensagem ocupa o lugar da conversa.
- Limite: não é memorial, não é peça e não é manual de relacionamento.
O que não esperar da leitura
Não há promessa de reconciliação nem lição de superação. A sinopse fala de uma paixão improvável que descreve um modo de se relacionar cada vez mais comum, e de um caso que não rompe a superfície. Isso é o contrário de um final consolador. Quem compra Todo vícios para “entender Maitê” leva um romance sobre outras duas pessoas, escrito por alguém que passou a vida interpretando texto alheio e aqui assina o próprio.
A edição em português circula na Amazon brasileira, em capa comum e também em formato digital, com o nome Todo vícios na capa da Record: um corpo em degradê, o título em amarelo dentro de um círculo. A imagem já diz o tom. Não é retrato da autora. É projeto gráfico de um livro sobre corpo, desejo e o que gira em volta sem sair do lugar.



