O pior de mim é o volume em que Maitê Proença coloca, no mesmo objeto, um texto inédito e uma nova edição de Uma vida inventada. Não são dois livros empilhados por acaso de catálogo. A edição publicada pela Agir foi pensada para que as narrativas se encontrem: as páginas finais de um lado praticamente tocam as do outro, e o leitor escolhe por qual capa começar.
Uma vida inventada saiu em 2008 e foi o romance que tirou Maitê da estante de crônica para a de ficção mais vendida. A história acompanha uma menina que quer atravessar o mundo e, no percurso, esbarra em si mesma. A autora mistura caso e invenção de propósito. O texto da edição nova avisa o pacto com clareza: é ficção sem ilusão. Nem tudo está claro, e não há a promessa de uma confissão completa.
O pior de mim retoma uma das meninas dessa trama, aquela que pode ser lida como um alter ego, sem que o livro feche a identidade. A sinopse da Agir descreve o conjunto como literatura e vivência no mesmo jogo de esconder e revelar. Quem comprou o romance em 2008 encontra aqui a obra de novo, revista na forma do volume duplo. Quem chega agora lê os dois textos como um só projeto.
De onde vem o título
O nome não nasceu só na gráfica. Em 2022, Maitê levou aos palcos o solo O pior de mim, montagem em que usou material da própria vida. A Folha, ao entrevistá-la em janeiro de 2025, tratou esse monólogo como o lugar em que ela expôs o que queria dizer em voz alta, e o livro como o cômodo em que ficaram detalhes que não entraram na cena. O volume da Agir, portanto, conversa com duas datas: 2008, ano do romance que estourou, e 2022, ano do solo que reabriu a mesma matéria.
Essa origem importa para quem escolhe o livro esperando biografia. Há fato familiar no horizonte da autora, e ela nunca escondeu isso em entrevistas. O contrato de leitura, porém, é o do romance. Tratar cada episódio como documento é desobedecer ao aviso que a própria edição coloca na porta.
Para quem o volume serve
O livro serve a três leitores diferentes, e convém não misturá-los.
- Quem viu Dona Beija e quer saber o que Maitê escreve quando não está em cena.
- Quem já leu Uma vida inventada e procura a edição que a relança ao lado do texto novo.
- Quem se interessa por ficção brasileira em que memória e invenção dividem a mesma página, sem manual de autoajuda no meio.
Não é guia de carreira, nem diário comentado, nem peça transcrita. A atriz continua sendo a autora, e isso pesa na curiosidade de compra. O miolo, porém, pede leitura de romance: duas jornadas de descoberta, um jogo deliberado entre o que parece confissão e o que é construção.
Como este livro se liga à trajetória
Antes deste volume, Maitê já tinha coluna na Época, o livro de crônicas Entre ossos e a escrita e a peça Achadas e Perdidas. Uma vida inventada foi o passo em que a prosa longa segurou o nome dela nas listas. O pior de mim é a forma atual desse passo: a Agir reapresenta o romance de 2008 e acrescenta o texto que conversa com o solo de 2022.
Quem acompanha a carreira pela televisão pode estranhar a distância entre a cortesã da Manchete e estas capas ilustradas, uma amarela e outra preta, desenhadas como objeto de livraria e não como still de novela. A distância é o assunto. O livro existe justamente porque a frase pública dela deixou de caber só no horário da emissora.
A edição à venda no Brasil está na Amazon sob o título completo O pior de mim - Uma vida inventada, selo Agir, em português. O preço oscila conforme estoque e vendedor, e não cabe tratá-lo como dado fixo. O que não oscila é o conteúdo anunciado: dois textos, um volume, a mesma autora.



