Galileia, no romance de Ronaldo Correia de Brito, não é a região dos Evangelhos. É uma fazenda no sertão cearense, sede de uma família numerosa e decadente, para onde três primos viajam a fim de ver o avô Raimundo Caetano. O livro saiu pela Alfaguara em 2008 e, no ano seguinte, levou o Prêmio São Paulo de Literatura de melhor livro do ano.
Ismael, Davi e Adonias passaram parte da infância naquela terra e fizeram o possível para cortar o laço. A sinopse da editora os espalha pelo exterior, por Recife, por São Paulo e pela Noruega. São de uma geração que largou o campo para não voltar. A viagem de retorno é o motor do romance: a fazenda que um dia foi próspera guarda adultério, vingança e morte, e a editora descreve o movimento das pessoas ali como o das tragédias.
Por que esse romance, e não outro conto
Antes de Galileia, Correia de Brito já tinha teatro em cartaz, disco e livros de contos. Faca, de 2003, e Livro dos homens, de 2005, saíram pela Cosac Naify. O romance de 2008 é outra escala. São 240 páginas, formato de brochura, lançamento em 18 de outubro de 2008, ISBN 978-85-602-8158-9. É o primeiro romance dele, escrito por alguém que nasceu no mesmo sertão em que a fazenda está fincada.
O prêmio de 2009 não foi menção honrosa lateral. Foi o de melhor livro do ano, na sequência de Cristóvão Tezza e antes de Raimundo Carrero. O volume também foi finalista do Jabuti. A Companhia das Letras registra traduções para o espanhol, o francês, o italiano e o hebraico. No site do autor, as viagens e os convites internacionais aparecem depois desse êxito, não como prévia de estreia.
O que o leitor encontra na fazenda
A trama pública é de volta, não de descoberta turística. Os primos acham que a distância os livrou da violência da família. O livro trabalha o contrário: a origem espera no fim da estrada. Não há, na apresentação da editora, lição de superação nem mapa afetivo do Nordeste para consumo fácil. Há patriarca, sede em decadência e segredos que a viagem torna inevitáveis.
Isso conversa com a biografia sem virar chave dela. Correia de Brito nasceu na fazenda Lajedo, em Saboeiro, e mudou-se criança para o Crato. Galileia usa o chão que ele conhece para uma ficção de primos que foram embora. Tratar o romance como autobiografia disfarçada seria forçar o que nem a editora afirma. O chão do livro é o sertão de quem cresceu nos Inhamuns e depois clinicou no Recife.
Onde o livro se encaixa na obra
Estive lá fora, de 2012, retoma o fio de memória de Galileia com outro tempo: um estudante de medicina no Recife do regime militar, parado na ponte da Madalena. Rio sangue, de 2024, volta aos Inhamuns por outro século, com dois irmãos saídos de Portugal. Galileia fica no meio dessa linha como o romance da geração que tentou sair e foi chamada de volta.
Para quem lê conto antes de romance, Faca e Retratos imorais mostram a prosa curta, mais seca, de figuras quebradas. Galileia pede fôlego de saga familiar pequena: três primos, um avô, uma sede. Não é porta de entrada infantil. O Baile do Menino Deus, peça de reisado, fala com outro público e outro calendário.
Para quem faz sentido comprar
- Quem procura o romance premiado em 2009 e não um livro religioso sobre a Galileia bíblica.
- Quem já leu o conto nordestino dele e quer a primeira narrativa longa.
- Quem acompanha Alfaguara e literatura brasileira contemporânea de sertão, família e violência íntima.
A edição à venda é a da Alfaguara, selo do Grupo Companhia das Letras. Não há, na ficha pública, caixa de cursos nem continuidade em série. É um romance fechado. O limite também é claro: a sinopse entrega o movimento de retorno e o clima trágico, não o desenlace. Quem quiser o enredo inteiro precisa do livro, não de um resumo de orelha.
O título continua sendo a obra pela qual o nome de Ronaldo Correia de Brito atravessou prêmio, tradução e feira. Os livros posteriores dialogam com ele. Nenhum o substitui como marco de 2008.



