O registro civil de Saboeiro traz Ronaldo Correia de Brito em 2 de julho de 1951. No texto biográfico do site oficial, o nascimento na fazenda Lajedo, sertão dos Inhamuns, aparece em 1º de outubro de 1950, e ele explica a diferença como erro do tabelião, nunca corrigido. O nome da vida pública é o do cartório.
Quem procura esse nome quase nunca quer um consultório. Quer o autor de Galileia, romance que levou o Prêmio São Paulo de Literatura de melhor livro do ano em 2009, o dramaturgo do Baile do Menino Deus e, mais perto de agora, o romancista de Rio sangue, lançado pela Alfaguara em 2024. Formou-se em Medicina pela Universidade Federal de Pernambuco em 1975, vive no Recife e manteve literatura, teatro e música ao lado do ofício clínico.
Quem é Ronaldo Correia de Brito
Escritor, médico e dramaturgo. A ordem muda conforme a porta de entrada. No palco natalino do Recife ele é o homem do Baile. Na estante, é o contista que esperou até 1987 para publicar a primeira coletânea e o romancista que só estreou em livro longo em 2008. No verbete da Enciclopédia Itaú Cultural entra ainda a psicanálise, ao lado de cinema, literatura e teatro.
A vida pública não se organiza em torno de palanque, mentoria ou marca de curso. Desde dezembro de 2000 ele assina a coluna Entremez na revista Continente, a convite do jornalista Mário Hélio. Colaborou com a Terra Magazine, editada por Bob Fernandes, e foi colunista quinzenal de O Povo, no Ceará. Em 2007 foi escritor residente da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Em 2013 recebeu a Ordem do Mérito Cultural.
Da fazenda Lajedo ao Colégio Diocesano
No relato que ele publica, o pai é João Leandro e a mãe, Ritinha Brito, professora vinda do Crato. O casal passou a viver e administrar a fazenda Lajedo. Entre os poucos pertences da mãe havia um caixote de gramáticas, livros de aritmética e a História Sagrada, seleta bíblica comum nas casas cearenses. Ele conta que aprendeu a ler em histórias como a de José do Egito e que a Bíblia ficou, para ele, como livro de contos.
O mesmo texto traz uma confusão de nome: um padre redentorista teria recusado batizar a criança como Ronaldo, a família teria escolhido José às pressas, e o pai teria registrado Ronaldo mesmo assim. Quando os pais viram que o campo não segurava o futuro da família, mudaram-se para o Crato em 1955. Lá ele estudou até a terceira série no Grupo Escolar Francisco José de Brito e seguiu no Colégio Diocesano até o segundo ano científico.
O gosto pelo teatro, segundo esse relato, veio dos reisados, das lapinhas, dos pastoris, das bandas cabaçais e das festas da igreja. Antes de sair do Crato ele já tinha lido Machado de Assis, José de Alencar, Monteiro Lobato e um arco que ia de Homero e Shakespeare a Balzac, Dostoiévski, Tolstói e os trágicos gregos. Via também o que passava no cinema, de chanchada da Atlântida a John Ford, Pasolini, Visconti e Godard.
Medicina no Recife e a roda de Ariano Suassuna
Em 1969 foi para o Recife fazer cursinho de medicina. No texto do site, a cidade estava no auge da repressão: naquele ano o padre Henrique Pereira foi assassinado e o líder estudantil da Faculdade de Engenharia, Cândido Pinto, foi baleado. Classificado no vestibular, entrou em 1970 na Faculdade de Medicina da UFPE com Francisco Assis de Sousa Lima, colega do Crato com quem já tinha ensaiado teatro e que seria parceiro de texto por décadas.
No segundo semestre foram morar na Casa do Estudante e dividiram quarto com o poeta Ângelo Monteiro. Por Ângelo chegaram ao Departamento de Extensão Cultural da universidade, dirigido por Ariano Suassuna, que acabara de fundar o Movimento Armorial. A dupla frequentou a roda. A parceria longa de criação, porém, foi com o músico Antonio Madureira, do Quinteto Armorial, sem que eles se filiassem ao movimento.
Ainda em 1970 ele leu para essa roda o primeiro esboço do conto Lua Cambará. O longa em super-8, rodado e montado entre 1975 e 1977 com Assis Lima, Horácio Carelli Mendes e música de Madureira, usou atores não profissionais. A protagonista foi Avelina Brandão, então médica, chamada para o papel durante as filmagens. A cópia chegou à televisão, Davi Arrigucci Jr. viu o filme, e anos depois esse crítico indicou o caminho da Cosac Naify. Houve ainda versão musical de Madureira, duas versões para balé e um novo filme, dirigido por Rosemberg Cariry.
Formou-se em 1975. No site, ele descreve o arranjo entre consultório e escrita nos termos de Tchekhov: medicina como ofício e literatura como o trabalho que não cabe no expediente. A editora que hoje reúne a obra confirma o mesmo retrato curto: médico e escritor, nascido em Saboeiro, vivendo no Recife.
Teatro, disco e o Natal do Marco Zero
No começo dos anos 1980, com Assis Lima e Antonio Madureira, ele armou a trilogia das festas brasileiras. A queixa, contada por ele à Companhia das Letrinhas, era direta: os filhos cresceriam vendo só decoração de shopping e ouvindo Jingle Bells. Em 1983 saíram, pelo selo Eldorado, o disco e a peça Baile do Menino Deus. Depois vieram O Pavão Misterioso (1985), com participação de Antonio Carlos Nóbrega, Bandeira de São João (1987) e Arlequim (1989).
O Baile saiu do grupo pequeno. Uma edição da Objetiva entrou no Programa Nacional Biblioteca da Escola com tiragem de quase meio milhão de exemplares. Em 2004 a obra passou a ser encenada como cantata natalina na Praça do Marco Zero, no Recife, nos dias 23, 24 e 25 de dezembro. O texto é dele e de Assis Lima. A música é de Madureira. O palhaço Mateus conduz os brincantes de casa em casa, no molde do reisado.
Quando a prosa saiu da gaveta
A primeira coletânea, As noites e os dias, saiu pela Bagaço em 1987. Um exemplar chegou a Davi Arrigucci Jr. Com edição de Rodrigo Lacerda e Augusto Massi, Faca foi publicado em fevereiro de 2003. Vieram Livro dos homens (Cosac Naify, 2005) e, pela Alfaguara, Galileia (2008).
Galileia não é cenário bíblico. É o nome da fazenda do avô Raimundo Caetano, para onde três primos voltam atravessando o sertão cearense. O livro ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura de melhor livro do ano em 2009, foi finalista do Jabuti e saiu em espanhol, francês, italiano e hebraico. Retratos imorais (2010) levou o prêmio da Biblioteca Nacional na categoria contos e também chegou à final do Jabuti. Estive lá fora (2012) retoma o fio de memória do romance anterior, com um estudante de medicina no Recife do fim dos anos 1960.
Na literatura que ele seguiu publicando estão ainda O amor das sombras (2015), Dora sem véu (2018) e Rio sangue (2024). Este último voltou ao sertão dos Inhamuns. Em 2025 ficou entre os finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura, na categoria de melhor romance de 2024. O Diário do Nordeste registrou que ele foi o único cearense naquela lista, disputada com outras 157 obras.
O que separa os trabalhos
- Prosa tardia no livro: a primeira coletânea é de 1987; Faca, o volume que abriu a Cosac Naify, é de 2003.
- Festa em vez de sala fechada: Natal, São João e Carnaval viraram texto, disco e espetáculo com Assis Lima e Antonio Madureira.
- Sertão de fazenda e de origem: Galileia e Rio sangue partem dos Inhamuns, o chão onde ele nasceu.
- Medicina em paralelo: formado pela UFPE em 1975, seguiu como médico no Recife enquanto publicava.
No site, ele situa as traduções e os convites para fora do país a partir do êxito de Galileia. A lista que o próprio minibio repete inclui a Feira do Livro de Bogotá, o Festival Internacional de Literatura de Buenos Aires, o Salon du Livre de Paris e a Feira do Livro de Frankfurt. O romance premiado abriu a porta. O teatro já estava em cartaz havia mais de vinte anos.
Onde ler e acompanhar
O site oficial reúne a biografia longa, os livros e o blog. No Instagram ele se apresenta como escritor, contista, romancista, dramaturgo e médico, e aponta o prêmio de 2009. Há página no Facebook e um canal no YouTube em que ele indicou a série Crônicas, com episódios sobre medicina e arte. Os romances recentes estão na Alfaguara, do Grupo Companhia das Letras.
O leitor que abre o romance de 2008 encontra uma fazenda chamada Galileia e três primos que acharam ter deixado o sertão para trás. Quem chega pelo dezembro recifense encontra uma cantata de reisado, não um presépio de vitrine. Quem abre o livro de 2024 encontra José e João, irmãos saídos do norte de Portugal, num sertão que o autor trata ao mesmo tempo como chão histórico e como lugar de assombração.




