Rio sangue abre com um pedido simples e difícil: que alguém conte uma história. No romance de 2024, essa história é a de José e João, irmãos que deixam o norte de Portugal ainda crianças e desembarcam no Recife com a família, atrás de dinheiro na colônia. Ronaldo Correia de Brito publicou o livro pela Alfaguara em 13 de agosto de 2024, com 320 páginas e capa de Daniel Trench.
José, o mais velho, será ordenado padre contra a própria vontade. É silencioso, vacilante na fé. João é o atrevido, o violento. A editora apresenta a oposição entre os dois como o tom da saga, atravessada por gerações e etnias. Há também a irmã, Ana Maria. O sertão que aparece não é cenário de cartão. É o lugar para onde a família deixa o engenho e entra em disputa de terra.
Ficção no século colonial, não aula de história
O autor explicou, em entrevista ao Estado de Minas, o recorte temporal: o romance se passa entre 1690 e 1730, mas ele puxa para trás figuras e fatos de cem anos adiante, como o viajante inglês Henry Koster. A frase dele é direta. Trata-se de ficção, não de romance histórico, porque durante alguns séculos pouca coisa teria mudado no Brasil que ele quer mostrar. Colonialismo, violência, feminicídio e desigualdade entram como matéria dessa escolha, não como anexo didático.
Na mesma conversa ele localiza a origem do livro numa história que o assombra desde a infância: um feminicídio que, no relato, inaugura a chegada de criadores de gado e plantadores de algodão ao sertão dos Inhamuns, onde ele nasceu. Disse ter jurado vingança narrativa mesmo o crime tendo ocorrido três séculos antes, e que escrever, mostrar repulsa e horror, foi essa vingança. É fala dele, não perícia de arquivo. O romance se apoia nisso e avisa, pela boca do narrador que ele cita, que nada daquilo aconteceu e que sempre existiu.
Como o livro foi fechado
A Alfaguara é o selo, e o editor com quem ele trabalhou foi Marcelo Ferroni. Correia de Brito considera o término do livro o dia 22 de agosto de 2023, quando enviou o nono tratamento à editora, depois de quase um ano com a equipe. A ficha técnica registra brochura de 15 por 23,2 centímetros, 320 páginas, ISBN 978-85-565-2221-4. Não é novela curta nem reedição de Galileia com outro título.
Em outubro de 2025, o Diário do Nordeste informou que Rio sangue estava entre os dez finalistas da 18ª edição do Prêmio São Paulo de Literatura, na categoria de melhor romance de 2024, e que o autor era o único cearense da lista. A obra concorreu com outras 157. Finalista não é vencedor. O dado serve para situar a recepção, não para inflar o livro.
O que muda em relação a Galileia
Galileia, de 2008, acompanha três primos que voltam a uma fazenda do século em que o autor cresceu. Rio sangue recua até a colônia e acompanha a formação de uma parentela de portugueses no caminho do açúcar para o gado. Os dois livros se encontram nos Inhamuns e na violência de família. Não se repetem. Um é retorno. O outro é fundação, contada com lenda, oralidade e corte de tempo.
A orelha da Alfaguara traz uma frase de Alberto Mussa: a ficção de Correia de Brito estaria marcada pela tragicidade da Bíblia hebraica, pelo poder fabulatório das Mil e uma noites e pelo alcance épico do Mahabharata. É apresentação de editora, útil como mapa de leitura, não como medição. O que o texto sustenta sem adjetivo é a mistura de saga familiar, embate de poder e histórias que o autor trata como afluentes de um rio.
Quem tende a procurar este romance
- Quem leu Galileia, Estive lá fora ou Dora sem véu e quer o livro novo, não uma reimpressão.
- Quem busca ficção sobre o Brasil colonial e o sertão do Ceará sem pedir fidelidade de manual escolar.
- Quem acompanha a Alfaguara e o Prêmio São Paulo de Literatura na leva de 2024 e 2025.
O volume à venda é a primeira edição de brochura. O autor pediu, em conversa pública, que o sertão não seja lido como lugar único nem como pura lenda: no livro, tudo é real e ficção ao mesmo tempo. Quem espera biografia do médico recifense não encontra consultório aqui. Encontra a história que ele diz carregar desde a fazenda em que nasceu.



