Mensalão, de Merval Pereira, é a coluna de O Globo durante o julgamento da Ação Penal 470, não um romance do escândalo e não o único livro com esse nome na prateleira. A Record lançou o volume em 24 de janeiro de 2013, com 288 páginas. Os artigos vão de 2 de agosto a 18 de dezembro de 2012, o período em que o Supremo Tribunal Federal julgou o caso sob os holofotes.
O prefácio é de Carlos Ayres Britto, ministro que presidiu o julgamento. Isso muda a expectativa de leitura. Não se trata de um panfleto escrito à margem do tribunal: a abertura é de quem conduziu a corte naqueles meses, e o miolo é o comentário diário de um colunista que já acompanhava o mensalão desde o noticiário de 2005, agora diante da fase judicial.
O que está dentro e o que fica de fora
A sinopse da Record descreve uma coletânea consistente sobre o julgamento que mobilizou o país, com personagens acompanhados no dia em que votavam, recorriam ou calavam. O leitor encontra o fluxo da sessão, não a reconstituição policial de 2005 inteira. Quem quiser a origem do esquema, o voto de Roberto Jefferson ou a operação de Marcos Valério precisa de outras reportagens. Aqui o centro é o Supremo entre agosto e dezembro de 2012.
Há outro livro chamado Mensalão, de Marco Antonio Villa, pela LeYa, anterior e de natureza diferente. Confundir os dois é fácil pelo título e inútil para quem quer a coluna do Globo. O de Merval é diário de julgamento. O de Villa é outra análise, de outro autor.
Por que o volume existe
O julgamento foi longo o bastante para a coluna virar arquivo. Um artigo isolado envelhece com o voto do dia. Reunidos, os textos mostram a mudança de temperatura: a expectativa antes da sessão, o voto que alterou a pena, a discussão sobre regime fechado quando condenados do PT passaram a enfrentar cadeia. Merval escreveu, em 15 de novembro de 2012, que era constrangedor para um partido havia dez anos no poder ver o sistema penitenciário entrar no debate só quando líderes petistas foram condenados a regime fechado. A frase está no livro porque estava no jornal.
O público é quem acompanhou a AP 470 pela televisão e quer o rastro escrito, e quem estuda a relação entre imprensa e Supremo num julgamento de corrupção com réus políticos. Não é manual jurídico. Não substitui o acórdão. Não promete que a leitura feche a disputa sobre o que o mensalão foi.
O lugar dele na obra de Merval
O Lulismo no Poder, de 2010, parava antes dessa fase judicial. Mensalão é a continuação natural da coluna, não uma mudança de gênero. Três anos depois da posse na cadeira 31, o acadêmico ainda era, neste livro, o repórter de opinião que fecha o texto de madrugada. A edição impressa segue associada à Record, com o subtítulo que a capa repete: o dia a dia do mais importante julgamento da história política do Brasil. A fórmula é dele e da editora. O leitor decide se o adjetivo cabe. O material, em todo caso, é o calendário do julgamento, artigo por artigo.



