Em 13 de dezembro de 1968, Merval Pereira era o estagiário mais novo da redação de O Globo quando o AI-5 foi lido em silêncio. Tinha 19 anos. Anos depois, na própria coluna, ele descreveu aquele ato como “o golpe dentro do golpe” e a redação que o ouviu muda. Quase seis décadas depois, o mesmo carioca ainda assina a análise diária do jornal, comenta política na CBN e na GloboNews e preside a Academia Brasileira de Letras.
Quem busca o nome costuma querer separar três coisas que andam juntas: o comentarista da manhã, o acadêmico da cadeira 31 e o autor que transformou artigos em livro. Merval Soares Pereira Filho nasceu no Rio de Janeiro em 24 de outubro de 1949, quando a cidade ainda era Distrito Federal. É neto, pelo lado materno, do ex-senador Clodomir Cardoso. A vida pública dele se explica pela redação, não por um mandato.
Quem é Merval Pereira
O nome de registro é Merval Soares Pereira Filho. O pai, o médico Merval Soares Pereira, pressionava para que o filho trabalhasse cedo. Aos 17 anos, Merval entrou como estagiário no Diário de Notícias. No Globo, a porta foi um pedido do pai a Rogério Marinho, irmão de Roberto Marinho. Em 1968 ele começou no setor de Esportes.
A formação anterior não virou diploma. Ele trocou o curso científico pelo clássico, começou Direito na Universidade do Estado da Guanabara e não concluiu. Também não chegou a assumir o emprego de banco que o pai tinha arranjado: saiu de cena antes da entrevista. A coluna diária, como trabalho principal, só começou em 2003, quando ele deixou a gestão do jornal para voltar a escrever todo dia.
Um detalhe público, fora do expediente político, é o Fluminense. Em janeiro de 2012 a coluna “A vitória do meu tricolor” tratou o clube na primeira pessoa. Não muda o ofício. Mostra o carioca que, entre palácio e academia, ainda fala de arquibancada.
Da redação de 1968 ao comando do jornal
O estágio de esportes não foi o destino. Em 1973 ele se afastou do Globo e foi a Londres fazer um curso de gravura em metal. De volta ao Brasil, a sucursal de Brasília virou a escola de política. Em 1974, depois da reportagem geral e do esporte, passou ao jornalismo político na capital. Em 1977, aos 27 anos, assumiu a chefia da sucursal.
Dali viu o desmonte do AI-5 de outro lugar. Em 13 de outubro de 1978, quando foi promulgada a emenda constitucional nº 11, que revogava os atos institucionais, ele já chefiava Brasília. A emenda entrou em vigor em 1º de janeiro de 1979. No mesmo ano, a série A Segunda Guerra: sucessão de Geisel, escrita com André Gustavo Stumpf e publicada no Jornal de Brasília, recebeu o Prêmio Esso. O livro saiu pela Brasiliense ainda em 1979. É reportagem de sucessão presidencial, não coletânea de coluna.
A volta ao Rio teve desvios. Em 1983 foi para a Veja, onde foi editor nacional e chefiou as sucursais do Rio e de Brasília. Em 1985 retornou ao Globo como subeditor-chefe e, em seguida, editor-chefe. Em 1992 estudou política internacional na Universidade Stanford. Teve também passagem pelo Jornal do Brasil, na direção executiva. Em 1993 reassumiu a chefia da sucursal de Brasília. Em julho de 1995 tornou-se diretor de redação.
No comando, o jornal criou o suplemento literário Prosa & Verso, hoje extinto, ampliou a página de opinião, lançou o Extra e concluiu a reforma gráfica que já vinha sendo planejada na gestão de Evandro Carlos de Andrade, quando Merval era editor-chefe. Depois foi diretor executivo da Infoglobo e diretor de jornalismo de mídia impressa e rádio do Grupo Globo. Em 2026 a coluna ainda o apresenta como integrante do Conselho Editorial do grupo.
Coluna, rádio e televisão
Em 2003 a cadeira de diretor ficou para trás. A coluna de análise política estreou naquele ano. A História Globo guarda, lado a lado, a página de 3 de junho de 2003 e uma edição de 2025. O ritmo não arrefeceu: em setembro de 2026 os textos seguiam no mesmo endereço, da eleição ao caso do Banco Master. A página atual é a coluna de Merval Pereira no Globo.
O comentário não ficou no papel. Ele atua na CBN e na GloboNews, e o texto de apresentação da coluna repete essa combinação junto com o Conselho Editorial. Em 2008 foi professor visitante do Center for Brazilian Studies, no Institute of Latin American Studies da Universidade Columbia. Em 2009 recebeu o prêmio Maria Moors Cabot, concedido pela escola de jornalismo da Columbia a trabalhos de cobertura na América Latina e no Caribe.
Há vínculos estáveis fora do expediente diário. É conselheiro do Centro de Estudos da América da Universidade Candido Mendes, membro do Board of Visitors das John S. Knight Fellowships, em Stanford, e integrante da Academia Brasileira de Filosofia. No X, @mervalpereira usa a mesma identificação profissional e aponta para a coluna do dia.
A cadeira 31 e a presidência da ABL
Em 2 de junho de 2011 a Academia Brasileira de Letras elegeu Merval para a cadeira 31, a de Pedro Luís Pereira de Sousa, aberta com a morte de Moacyr Scliar. A posse foi em 23 de setembro de 2011. A escolha reabriu o debate sobre o ingresso na casa. O crítico Fábio Lucas, ele próprio derrotado numa eleição anterior da ABL, disse à Folha que as academias estavam reunindo mais notáveis de outras áreas do que da literatura. Naquele momento, Merval tinha dois livros publicados: uma reunião de artigos e uma série de reportagens em coautoria.
A trajetória de academia não parou no Rio. Em 12 de abril de 2016 foi eleito sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa, na classe de Letras. Tomou posse em 24 de novembro, na sede da instituição, com discurso sobre liberdade de expressão e a responsabilidade de quem informa. O perfil oficial de Lisboa o descreve como escritor, jornalista e comentador político, e registra a presidência da ABL a partir de 2022.
Essa presidência começou em 11 de março de 2022, no lugar deixado por Marco Lucchesi, presidente de 2018 a 2021. Em outubro de 2025 a Folha de S.Paulo noticiou uma alteração no regimento: o tempo máximo no cargo passou de quatro para cinco anos, e Merval permaneceria até dezembro de 2026. Em 4 de dezembro de 2025 a Academia aprovou a continuidade da diretoria para o exercício de 2026, de novo com ele na presidência. O relatório de atividades daquele ano o apresenta como presidente da casa.
Em junho de 2025, ainda nesse papel, ele fez na ABL a palestra “100 anos do jornal GLOBO”, dentro do ciclo Quinta é Cultura, ao lado de Arnaldo Niskier. O centenário do jornal e a cadeira de acadêmico apareceram no mesmo salão: o estagiário de 1968 falando, como presidente da Academia, da redação em que entrou.
O que a coluna virou livro
Os livros não substituem o texto do dia. Eles congelam períodos. O Lulismo no Poder, pela Record, em 2010, reúne artigos sobre o governo Lula, da campanha de 2002 aos primeiros meses de 2010. Mensalão, também pela Record, em 2013, acompanha o julgamento no Supremo entre agosto e dezembro de 2012. Desafios da Democracia, pela Topbooks, em 2021, sai da crônica estritamente política e mistura cultura, educação, imprensa e cenário internacional de 2003 a 2020. A reportagem de 1979, com Stumpf, fica de fora dessa série de coletâneas: é outro gênero.
A biografia cabe nesses marcos. O miúdo de cada volume, o recorte e o que o leitor encontra ao abrir o livro ficam nas páginas próprias, sem transformar capa comum e edição digital em obras diferentes.
- Colunista de O Globo desde 2003, comentarista da CBN e da GloboNews e membro do Conselho Editorial do Grupo Globo.
- Chefe da sucursal de Brasília em 1977 e diretor de redação do Globo a partir de julho de 1995, com passagens pela Veja e pelo Jornal do Brasil.
- Ocupante da cadeira 31 da ABL desde 2011 e presidente da Academia desde 11 de março de 2022.
- Autor de O Lulismo no Poder, Mensalão e Desafios da Democracia, além de A Segunda Guerra: sucessão de Geisel, com André Gustavo Stumpf.
Onde acompanhar
A leitura diária está na coluna do Globo. A ficha de acadêmico está no site da Academia Brasileira de Letras. O comentário falado segue na CBN e na GloboNews. Quem chega pelo assunto, e não pelo fardão, encontra outros nomes do mesmo debate em política.




