Desafios da Democracia é a antologia em que Merval Pereira saiu do recorte único. Os livros anteriores fechavam um governo ou um julgamento. Este, publicado pela Topbooks em 2021, junta artigos de O Globo entre 2003, ano em que a coluna começou, e o fim de 2020. A sinopse editorial fala em 143 textos, em ordem cronológica, não em blocos temáticos. A ficha da primeira edição registra 452 páginas e o ISBN 9786558970071. As livrarias receberam o volume em 1º de outubro de 2021.
A ênfase, explicada pelo próprio autor a Lauro Jardim antes do lançamento, não era repetir a crônica política já reunida. Ele queria cultura, valores democráticos, eleições americanas, futebol como diálogo entre países, o papel da mídia e da tecnologia, e temas em que a Academia Brasileira de Letras vinha chamando pensadores de fora e de dentro. O livro é coluna expandida, não ata da ABL.
Quem assina as bordas do volume
A apresentação é de Celso Lafer. As orelhas são de Fernando Gabeira. A quarta capa é de Nélida Piñon, colega de Merval na Academia. Veja, ao resenhar o lançamento, tratou os artigos como cerca de 144 e notou que a ordem cronológica dificulta achar um fio único. É uma crítica útil: quem busca “o pensamento de Merval” num capítulo temático vai se perder. Quem aceita o diário encontra, em outubro de 2003, um alerta sobre boatos na internet anos antes de a expressão fake news virar moeda corrente.
Há política brasileira no miolo, inclusive o período posterior aos dois livros da Record. Há também desigualdade, educação, conjuntura internacional e comentário de livros. A última frase, destacada pela resenha da Veja, discute o uso de palavrão na vida pública: pode significar apenas falta de educação. O tom é o da coluna, curto e datado, não o de um tratado.
O que o leitor não deve esperar
Não é a história da democracia brasileira desde 1985, embora Merval tenha dito a O Globo, no lançamento, que o regime contínuo aberto naquele ano ainda era jovem e pouco estável. O livro cobre metade desse período, e só pelos textos que ele escolheu guardar. Artigos de futebol e de cultura entram de propósito. Quem quiser só o julgamento do mensalão ou só o governo Lula já tem os volumes de 2013 e de 2010.
Também não é obra de ficção. Em 2002 ele participou de uma coletânea de contos da Francisco Alves e, em entrevista a Zuenir Ventura, reconheceu que o ritmo de coluna, rádio e televisão não deixou espaço para a ficção. Desafios da Democracia continua sendo jornal reunido.
Por que o livro importa na biografia
O volume chegou às lojas em outubro de 2021, meses antes de Merval assumir a presidência da ABL, em 11 de março de 2022. Na época do lançamento ele já ocupava a cadeira 31 havia dez anos. O livro mostra o acadêmico ainda funcionando como colunista diário, e alarga o que “coluna política” quer dizer no caso dele: cabe um texto sobre eleição americana, outro sobre tecnologia, outro sobre o país visto do futebol.
A edição é da Topbooks, brochura, primeira edição de 2021. O título completo na ficha é Desafios da Democracia: 2003–2020. Algumas vitrines encurtam para “Desafio da Democracia”. O ISBN e a capa com o intervalo 2003-2020 identificam o mesmo livro. A leitura rende mais se o leitor entrar pela data do artigo, não por um índice de teses.



