O Lulismo no Poder não é uma biografia de Luiz Inácio Lula da Silva nem um ensaio escrito a frio depois que o governo acabou. É a coluna de Merval Pereira em O Globo, selecionada e encadernada pela Record em 2010, cobrindo da campanha vitoriosa de 2002 aos primeiros meses daquele ano eleitoral.
O título conversa com um clássico da crônica política brasileira, Os militares no poder, de Carlos Castello Branco. A homenagem está declarada na apresentação do volume. O próprio Merval avisa o limite do método: o livro se pretende registro da história em tempo real e, por isso, pode errar pelo texto apressado ou pela previsão que não se confirma. Não se apresenta como trabalho de historiador.
O que o volume recorta
A seleção acompanha o primeiro ciclo do lulismo no Planalto a partir dos artigos já publicados, não de um relato reconstruído anos depois. A introdução é do historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva. Entre os núcleos que a edição destaca estão José Dirceu e o mensalão, e Antonio Palocci e o caso do caseiro. São capítulos de jornal, com a data em que o fato ainda estava quente, não verbetes de dicionário.
Em setembro de 2010, no lançamento, Merval disse ao Instituto Millenium que via o lulismo como resultado do mensalão e das políticas assistencialistas. É a leitura dele, dita em entrevista, não um consenso de ciência política. Serve para o leitor saber de que lado da coluna o livro foi montado: o comentarista que, segundo o próprio depoimento, manteve boa vontade com parte da política econômica no início e depois passou a tratar o governo como sustentação de um esquema de corrupção.
Para quem o livro serve
O público não é quem procura a história oficial do PT nem quem quer a defesa do governo. É quem já lê a coluna e deseja o arco de oito anos num só objeto, ou quem estuda imprensa política e precisa ver como um jornal carioca narrava, dia a dia, a popularidade de Lula, a relação com o PSDB e os escândalos que mudaram o tom da cobertura.
Há um custo nessa forma. Previsões furadas ficam impressas. Artigos deixados de fora também mudariam o retrato: Merval contou, na mesma entrevista, que o projeto inicial tinha mais temas e que dois capítulos sobre a relação entre PT e PSDB ficaram pelo caminho. O livro é uma escolha, não o arquivo integral da coluna.
Como ele se liga à carreira
Quando o volume saiu, Merval já não era diretor de redação. Tinha voltado ao texto em 2003 e, no ano anterior ao lançamento, recebera o Maria Moors Cabot, da Universidade Columbia. O Lulismo no Poder é o primeiro dos livros de coluna, anterior ao julgamento do mensalão no Supremo e anterior à cadeira na Academia Brasileira de Letras, que só viria em 2011. Ler o volume é ler o comentarista antes do fardão.
A edição impressa circula pela Record desde 2010. Não há, no próprio livro, promessa de fórmula eleitoral nem de previsão infalível. O valor está no recorte datado: a política brasileira vista da coluna, com os erros de antecipação inclusos, como o autor pediu que fosse lido.



