Quem procura Moacyr Scliar quase nunca quer só uma data de nascimento. Quer entender como um médico sanitarista de Porto Alegre virou um dos narradores mais lidos da literatura brasileira contemporânea — e por que o personagem mais famoso dele não é um herói de capa, e sim um centauro no jardim de uma família judaica do interior gaúcho.
Moacyr Jaime Scliar nasceu em 23 de março de 1937, no Bom Fim, o bairro imigrante da capital do Rio Grande do Sul. Morreu na mesma cidade em 27 de fevereiro de 2011. Entre esses dois marcos publicou mais de 70 livros, escreveu crônicas para Zero Hora e Folha de S.Paulo, ocupou a cadeira 31 da Academia Brasileira de Letras e deixou uma obra em que judaísmo, medicina, humor e fantasia não se separam em gavetas. Este perfil trata da pessoa pública; os romances mais procurados ganham páginas próprias.
Quem foi Moacyr Scliar
Scliar foi médico, escritor, cronista, ensaísta e professor universitário. A fórmula curta — “escritor e médico” — é verdadeira e ainda assim pobre. Ele exerceu a medicina na rede pública e na universidade, especializou-se em saúde coletiva e, ao mesmo tempo, construiu uma ficção que mistura fábula, romance histórico, conto urbano e crônica de jornal. Não era um médico que “também escrevia” nem um autor que usava o jaleco como enfeite: as duas profissões se alimentavam.
Na literatura brasileira, ele ocupa um lugar raro. Poucos autores do século XX trataram com tanta persistência a vida judaica no Sul do Brasil sem transformar o tema em folclore nem em tese. O Bom Fim, a imigração da Bessarábia, o conflito entre pais europeus e filhos brasileiros, o médico idealista e o médico cínico: tudo isso reaparece, livro após livro, com ironia e imaginação. Quem chega hoje pelo cinema de A vida de Pi encontra outro Scliar; quem chega pelo vestibular encontra ainda outro. Os dois existem.
O Bom Fim, a família e a formação
Os pais, José e Sara Scliar, eram judeus oriundos da Bessarábia, então no Império Russo, e migraram para o Brasil em busca de uma vida sem perseguição. Moacyr, o filho mais velho, foi alfabetizado pela mãe, professora primária, e passou a infância no Bom Fim — o “coração judaico” de Porto Alegre, como a própria obra dele acabou batizando o bairro para muita gente que nunca pisou ali.
A partir de 1943 estudou na Escola de Educação e Cultura, o Colégio Iídiche. Em 1948 transferiu-se para o Colégio Rosário. Em 1955 entrou na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e formou-se em 1962, o mesmo ano em que publicou o livro inaugural, Histórias de um médico em formação. A coincidência não é enfeite biográfico: a estreia literária e o diploma chegaram juntos.
Na década de 1960 consolidou a carreira médica. Residência, especialização em saúde pública, trabalho como sanitarista a partir de 1969, pós-graduação em Israel em 1970 e doutorado em Ciências pela Escola Nacional de Saúde Pública. Depois, a cadeira de Medicina e Comunidade na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre. Casou-se com Judith; o filho Roberto nasceu em 1979. A vida privada entra aqui só o suficiente para não transformar o perfil em ficha oca: havia casa, família e plantão, e havia a máquina de escrever.
Como a medicina e a ficção se cruzaram
Quem lê Scliar só como autor de fantasia judaica perde metade da obra. Há um ciclo médico explícito. Doutor Miragem (1978) encara o profissional que troca ética por prestígio. Sonhos tropicais (1992) volta a Oswaldo Cruz, à febre amarela, à varíola e à Revolta da Vacina — e virou filme em 2002, dirigido por André Sturm. Ensaios como Do mágico ao social e Cenas médicas, ambos de 1987, mostram o sanitarista pensando a história da saúde pública, não só o romancista inventando metáforas.
A outra linha, a mais procurada, nasce no Bom Fim. A guerra no Bom Fim (1972) é o primeiro romance: Joel, menino judeu nos anos 1940, guerra na Europa, calçada porto-alegrense. Vêm depois O exército de um homem só, Os deuses de Raquel, O ciclo das águas e, em 1980, O centauro no jardim, o livro que o National Yiddish Book Center, nos Estados Unidos, colocou entre os cem melhores de temática judaica dos últimos duzentos anos. Guedali Tartakovsky, metade homem e metade cavalo, é a imagem mais nítida do método: o fantástico não enfeita a identidade; ele a torna visível.
Nos anos finais, Scliar deslocou o olhar para a Bíblia vista de baixo: A mulher que escreveu a Bíblia, Os vendilhões do templo, Manual da paixão solitária. Em paralelo, nunca abandonou o conto — O carnaval dos animais (1968) abre o caminho — nem a crônica de jornal, nem a literatura infantojuvenil. Também escreveu quadrinhos em Pega pra Kaputt! com Josué Guimarães, Luis Fernando Verissimo e Edgar Vasques. Uma foto de acervo o mostra ao lado de Verissimo, Lya Luft e Luiz Antonio de Assis Brasil: o grupo gaúcho que ocupou jornal, livro e conversa pública sem precisar de pose de torre de marfim.
Prêmios, ABL e o que ficou depois de 2011
A lista de prêmios é longa e, por isso, convém ser específica. Scliar venceu o Prêmio Jabuti em 1988, 1993 e 2009; recebeu o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte em 1989; e o Casa de las Américas, na categoria conto, no mesmo ano, por O olho enigmático. O centauro no jardim já havia ganhado o APCA em 1980. Em 1993 e 1997 foi professor visitante na Brown University e na Universidade do Texas. Em 31 de julho de 2003 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, sétimo ocupante da cadeira 31, na sucessão de Geraldo França de Lima; tomou posse em 22 de outubro, recebido por Carlos Nejar.
Há um episódio internacional que ainda puxa busca: em 2002, o romance A vida de Pi, de Yann Martel, foi comparado a Max e os felinos (1981). Scliar comentou a semelhança e, segundo ele próprio, a imprensa exagerou o caso; não processou o autor canadense. O dado útil para o leitor é outro: a novela curta do gaúcho — um alemão, um naufrágio, um jaguar no bote — circulava há duas décadas quando o best-seller mundial reabriu a conversa.
Em janeiro de 2011 sofreu um acidente vascular cerebral durante a recuperação de uma cirurgia no Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Morreu em 27 de fevereiro, aos 73 anos. O editor Luiz Schwarcz resumiu o ofício dele sem inflar: um olhar que criava um mundo fantástico em que o humano estava a serviço da literatura. A página oficial, moacyrscliar.com, hoje reúne biografia, obras, fotos e o acervo mantido pela família.
- O centauro no jardim — o romance da identidade partida, ponto de partida mais citado da obra adulta.
- A guerra no Bom Fim — o primeiro romance e o mapa do bairro que virou território literário.
- Max e os felinos — a novela curta que o mundo reencontrou via A vida de Pi.
- A mulher que escreveu a Bíblia — a fase bíblica vista pelos olhos de uma escriba anônima.
Por que ainda procurar Scliar
Procurar Moacyr Scliar em 2026 é procurar um escritor que recusou o Brasil genérico. Ele escreveu Porto Alegre com nome de rua e cheiro de loja; escreveu o médico que erra e o médico que insiste; escreveu o judeu brasileiro sem pedir licença a estereótipo. Para professor, leitor de romance, estudante de saúde coletiva ou quem só quer um livro que não se esgote na primeira metáfora, a porta de entrada muda — o endereço, não. Comece pelo centauro se quiser a síntese; pelo Bom Fim se quiser a origem; por Max se quiser a novela curta. O resto da estante, mais de setenta títulos, confirma o que a busca já desconfiava: Scliar não foi um autor de um livro só. Foi um narrador de ofício duplo, e os dois ofícios ainda conversam.





