A guerra no Bom Fim é o primeiro romance de Moacyr Scliar e ainda o melhor mapa de origem da obra. Publicado em 1972, em plena ditadura militar, o livro não descreve um front brasileiro. A guerra que o título nomeia chega pelo rádio, pelo jornal e pelo medo dos imigrantes que já tinham fugido da Europa. No chão, o que existe é o bairro: o Bom Fim de Porto Alegre, loja, calçada, família judaica, menino que tenta entender o mundo adulto.
Joel relembra a infância nos anos 1940. Brinca, escuta, vê os pais e vizinhos tentando se adaptar a uma sociedade que é e não é a deles. A imagem de Franz Kafka paira sobre o passado e o presente do narrador — não como citação culta, e sim como espectro de quem escreve a partir do deslocamento. Scliar mistura realismo e fantasia, mas o fantástico aqui ainda não tem o corpo do centauro; tem o tamanho de um menino que transforma notícia de guerra em aventura e angústia.
O bairro como território literário
Antes deste livro, Scliar já havia publicado contos, entre eles O carnaval dos animais (1968). O romance de 1972 cumpre uma promessa: tira as personagens judaicas da margem e as coloca no centro. Joel não está sozinho. Há família, amigos, vizinhos, unidos pela etnia, pela procedência europeia e pelo endereço. O Bom Fim deixa de ser pano de fundo e vira personagem. Para muita gente no Rio Grande do Sul, o bairro real e o bairro do livro passaram a se explicar um ao outro.
Isso importa porque a literatura brasileira do século XX tem muitos romances de formação e poucos que situem a formação num enclave imigrante do Sul com essa precisão. Não é o Recife de um memorialista nordestino nem o Rio da crônica carioca. É Porto Alegre vista de dentro da comunidade que o menino Scliar de fato conheceu. A página oficial do autor trata o livro como romance de formação e como testemunho de uma geração que precisava reler o passado nacional — inclusive o passado que o Brasil oficial preferia não ver.
Guerra lá, aprendizagem aqui
A tensão do livro está no descompasso de escala. Enquanto a Europa queima, Joel aprende os “fatos da vida” na calçada. A comunidade imigrante traz a guerra no corpo; a criança tenta traduzir isso em brincadeira, lealdade, medo e humor. O resultado não é um romance histórico de batalha. É um livro sobre o que a História faz com quem está longe do canhão e perto demais da notícia.
Lançar esse texto em 1972 não é detalhe de catálogo. A ditadura brasileira pedia outras narrativas de nação. Scliar ofereceu um menino judeu no Bom Fim. Sem discurso de manifesto, o gesto já era político: a identidade nacional passava a incluir o sotaque, a loja, o sábado e o terror importado. Quem lê hoje, depois de décadas de discussão sobre imigração e memória, encontra um livro que chegou cedo e sem barulho de tese.
Por que começar por aqui — ou voltar aqui
Começar por A guerra no Bom Fim é começar pelo chão. Quem já leu o centauro ganha, neste volume, a geografia que o mito depois condensou. Quem nunca leu Scliar ganha uma porta menos “fantástica” e mais de formação: infância, bairro, família, guerra ao longe. A edição em circulação no Brasil é da L&PM, em português, com o texto que consolidou o título na estante escolar e na livraria.
Não é o livro mais premiado do autor, nem o mais citado no exterior. É o livro sem o qual os outros ficam flutuando. Se a pergunta for “quem é Scliar além do centauro?”, a resposta mais honesta ainda mora nesta novela de 1972. Depois dela, o caminho natural é O exército de um homem só ou o salto de 1980 rumo a Guedali. O Bom Fim, de qualquer maneira, já terá cumprido o que a busca pedia: mostrar de onde veio a voz.




