Max e os felinos é a novela em que Moacyr Scliar aperta o mundo num bote. O alemão Max cresce sob um pai severo, acumula medos — o felino entre eles — e se envolve com Frida, mulher de um militar nazista. A fuga da Alemanha o joga no Atlântico. O navio naufraga. No escaler, o espaço que resta precisa ser dividido com um jaguar.
Lançada em 1981 pela L&PM, a história é curta e não disfarça o que é: fábula de imigração, opressão e sobrevivência. Max não é um herói de resistência bem-comportado. É um jovem empurrado para fora da Europa pela própria imprudência e pelo terror de Estado. O gato enorme no barco não pede alegoria no ouvido do leitor; ela chega sozinha, porque o medo que o pai plantou volta em carne, dente e silêncio.
Três felinos, uma fuga
A novela se organiza em torno dos animais que assombram Max em fases distintas da vida. Há o tigre da infância, objeto de pavor doméstico. Há o jaguar no escaler, companhia forçada depois do naufrágio. Há a onça no Brasil, quando a travessia já virou outro tipo de exílio. O deslocamento de país — Europa, oceano, trópico — é também deslocamento de regime: do pai para o nazismo, do nazismo para a natureza, da natureza para a terra que recebe o imigrante sem garantir paz.
Scliar já tinha escrito sobre poder e identidade em chave gaúcha. Aqui o palco é mais largo. Max vem da Europa e encontra a opressão antes mesmo de cruzar o Equador. A liberdade que o Brasil parece oferecer não apaga o bicho no barco. Quem lê depressa pode achar que o livro “é sobre um naufrágio com onça”. Quem lê com o resto da obra vê o mesmo problema do centauro: como viver inteiro quando o mundo exige que você se parta.
A conversa com A vida de Pi
Em 2002, o sucesso mundial de A vida de Pi, de Yann Martel, reabriu Max e os felinos para um público que talvez nunca tivesse ouvido o nome de Scliar. Houve acusação pública de plágio. O escritor gaúcho comentou a semelhança, disse que a imprensa inflou o caso e afirmou que não pretendia processar o autor canadense. O episódio importa menos como briga literária e mais como porta de entrada: muita gente chega a esta novela porque viu o filme ou o livro de Martel e quer a versão brasileira, anterior, mais seca.
Vale a leitura por ela mesma. São poucas páginas, ritmo de fábula, humor sombrio e um final que não explica o jaguar. Scliar não escreveu um “antecipador” de best-seller; escreveu, em 1981, uma novela sobre medo e travessia que o mercado mundial, duas décadas depois, tornou visível de novo. Tratar o livro só como nota de rodapé de Martel é injusto com Max e com o felino.
Para quem este volume serve
Serve a quem quer um Scliar curto, sem o aparato do romance de 200 páginas. Serve a professor que precisa de uma narrativa de imigração e totalitarismo que caiba em duas aulas. Serve mal a quem espera o espetáculo visual de A vida de Pi: aqui o oceano é mais claustrofóbico do que pitoresco, e o animal não está ali para render platô.
A edição corrente em português no Brasil é da L&PM. É o item a procurar se a intenção for a novela original, não a discussão comparatista. Depois de Max, o leitor que quiser o mesmo tema — fuga, identidade, poder — pode ir a Na noite do ventre, o diamante ou voltar ao Bom Fim. O bote, de qualquer modo, já cumpriu o ofício: mostrar que Scliar não precisava de muitas páginas para deixar um homem sozinho com o próprio medo.




