O centauro no jardim começa com um nascimento impossível no interior do Rio Grande do Sul. Na família Tartakovsky, de imigrantes judeus russos, o quarto filho vem ao mundo metade homem e metade cavalo. O nome dele é Guedali. A partir daí, Moacyr Scliar não pede ao leitor que “aceite o fantástico”: ele trata o corpo híbrido como fato doméstico, constrangedor e, aos poucos, político.
Publicado em 1980 e relançado pela Companhia das Letras, o romance ganhou o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte naquele ano. Em 2002, o National Yiddish Book Center, nos Estados Unidos, o elegeu um dos cem melhores livros de temática judaica escritos nos últimos duzentos anos. Não é um selo de vitrine. É o reconhecimento de que a fábula do centauro fala, ao mesmo tempo, de assimilação, de classe média brasileira e de um povo marcado por perseguição e deslocamento.
O que a história conta, de fato
Guedali cresce excluído. O isolamento o empurra para a leitura. Inteligente e culto, é ele quem narra, a partir do próprio 38º aniversário, comemorado entre amigos num restaurante de São Paulo. A memória recua até Quatro Irmãos, passa pela juventude em Porto Alegre, pelo casamento com Tita — também centaura — e chega ao Marrocos, onde o casal busca uma cirurgia que os transforme em “pessoas normais”.
A nova edição da Companhia das Letras deixa explícito o arco que o livro percorre: fuga de casa, temporada como atração de circo, descoberta do amor, tentativa de correção do corpo e volta desconcertante a São Paulo. Não é um itinerário de aventura. É o mapa de alguém que tenta caber num país e numa família sem abrir mão do que o torna estranho.
Por que o centauro não é só metáfora bonita
Scliar usa o ser mitológico para tornar visível o que a sociologia às vezes deixa abstrato. Filho de judeus fugidos dos pogroms, Guedali precisa se adequar ao Brasil e, ao mesmo tempo, carrega a condição de estrangeiro no próprio corpo. A dualidade não é só étnica: é a tensão entre indivíduo e coletivo, entre o desejo de desaparecer na média e a impossibilidade de fazê-lo.
O livro também dialoga com o Brasil ainda sob ditadura militar, sem virar panfleto. A classe média angustiada, a vontade de “normalizar-se”, a cirurgia como fantasia de integração: tudo isso está no enredo, misturado a parábola bíblica, tradição oral, sátira e uma melancolia que não pede lágrima fácil. Quem procura um romance judaico brasileiro costuma chegar aqui. Quem procura fantasia latino-americana também. Os dois leitores encontram a mesma frase de abertura: nasceu um centauro.
Para quem este livro faz sentido
Faz sentido para quem quer entrar na obra de Scliar por um único volume e sair com o método inteiro na cabeça. Faz sentido para quem lê literatura fantástica sem abrir mão de chão histórico. Faz menos sentido para quem espera um tratado acadêmico sobre judaísmo ou um best-seller de ritmo cinematográfico: o livro é narrado em memória, com humor e desvio, e o desenlace não entrega moral pronta.
A edição em português da Companhia das Letras é a rota mais direta no Brasil. Há edição de bolso e a nova edição de 2024, com texto de orelha que situa o romance entre fábula e realismo. Vale o volume em papel se a leitura for de estudo ou de estante; o essencial é o texto, não o formato. Depois deste, o caminho natural na obra é voltar a A guerra no Bom Fim, onde o bairro ainda não virou mito, ou seguir para a fase bíblica, em que Scliar troca o centauro pela escriba anônima — outro corpo que a História preferiu não ver.




