Morte no paraíso existe porque a morte de Stefan Zweig em Petrópolis, em 22 de fevereiro de 1942, não cabia numa nota de jornal. O escritor austríaco, então um dos autores mais lidos do mundo, tomou veneno com a mulher, Lotte, numa casa da serra fluminense, enquanto a guerra ainda avançava na Europa. Alberto Dines passou décadas em cima desse capítulo brasileiro. O livro não é um romance sobre o exílio. É a biografia que tenta explicar por que um pacifista, rico e famoso, achou que o Brasil era o país do futuro e mesmo assim não ficou.
A primeira edição saiu em 1981, pela Nova Fronteira. Dines não tratou o texto como peça fechada. Reviu, ampliou e relançou o volume no Brasil e no exterior. A edição da Rocco que circula com o título Morte no paraíso: a tragédia de Stefan Zweig tem 736 páginas, ISBN 978-85-325-2766-0, e se apresenta como quarta edição ampliada. A editora descreve o autor como guardião do legado de Zweig no Brasil. O miolo usa material bibliográfico, dados que não estavam na versão de 1981 e nova iconografia.
O que o livro cobre, e o que não promete
Quem abre o volume espera a morte em Petrópolis e encontra um arco maior. Dines reconstitui a Viena da primeira metade do século XX, a ascensão de Hitler, a fuga dos refugiados e o Brasil da Era Vargas, inclusive o livro em que Zweig chamou o país de país do futuro. A carta deixada por Zweig agradece a hospedagem brasileira. O biógrafo não fica nessa frase. Mostra o desencontro entre o paraíso imaginado e a guerra que chegou à costa, com navios brasileiros torpedeados e notícias do extermínio na Europa.
Há um interesse pessoal declarado pelo próprio Dines, sem virar memórias de família. Quando tinha oito anos, a escola no Rio recebeu a visita de Zweig. Ele escreveu que viu o autor naquela ocasião, e que o suicídio foi um dos primeiros contatos com a morte e com jornais: leu os diários para entender por que o pai fora a Petrópolis na véspera e voltara arrasado. Esse detalhe explica a teimosia das reedições. Não é um biógrafo de encomenda. É um leitor que cresceu com a notícia.
Para quem o livro serve
O leitor típico já conhece Zweig por O mundo de ontem, por novelas como 24 horas na vida de uma mulher ou pela curiosidade em torno de Petrópolis. Também chega gente de história do Brasil na Segunda Guerra, interessada em refugiados, na política de Vargas e na colônia de língua alemã. Não é manual acadêmico com aparato de tese, embora a apuração seja densa. Não substitui uma história geral do Holocausto nem uma biografia política de Vargas. O foco é Zweig, visto do Brasil e da queda da Europa que ele tinha descrito.
- Primeira edição brasileira em 1981, pela Nova Fronteira.
- Edição ampliada da Rocco, com 736 páginas, identificada como quarta ampliada.
- Panorama de Viena, do nazismo, dos refugiados e do Brasil de Vargas.
- Base do filme Lost Zweig, de Sylvio Back, lançado em 2002.
O filme e o lugar do livro na carreira
Em 2002, Sylvio Back adaptou a matéria para o cinema em Lost Zweig. Dines também aparece falando de Zweig num documentário do mesmo diretor. O filme não substitui o livro: a edição da Rocco é o lugar em que a apuração, as fotos e o contexto de época ficam à mão de quem quer ler, não só assistir. Para Dines, o projeto atravessa a carreira de jornalista. Saiu enquanto ele ainda circulava entre redação, Portugal e o futuro Observatório da Imprensa. A biografia de Zweig é a obra pela qual o nome dele entra na estante de quem nunca assistiu ao programa de televisão.
A edição à venda no catálogo da Rocco é a rota direta para quem quer o texto revisto, não a brochura antiga de sebo sem saber qual revisão está comprando. Edições anteriores existem e mudam de tamanho. A de 2004, por exemplo, foi anunciada com quase o dobro da primeira. Por isso faz diferença pegar a ampliada da Rocco, e não qualquer volume com o mesmo título curto. O preço oscila conforme o estoque e não cabe como dado estável. O que permanece é o objeto: uma biografia longa, de um jornalista, sobre o escritor que morreu no país em que ele mesmo era criança.



