Observatório da Imprensa nasceu para fazer uma coisa que a redação raramente faz com método: olhar a própria cobertura e publicar o que viu. Não é um jornal diário, nem sindicato, nem canal de um apresentador. É um veículo de crítica da mídia criado por Alberto Dines. O site brasileiro está no ar desde abril de 1996. A página institucional o descreve como iniciativa do Projor, Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo, e como projeto original do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp, o Labjor.
O nome não começou em Campinas. A mesma página registra que a primeira organização chamada Observatório da Imprensa foi criada em Lisboa, três meses antes do Observatoire de la Presse francês, de setembro de 1995. O Projor manteve laços com a entidade portuguesa. No Brasil, o desenho juntou formação e vigilância cívica: o Labjor de um lado, o fórum de leitores e jornalistas do outro. Carlos Vogt, então reitor da Unicamp, deu o endosso que tirou o projeto do papel. A versão online de abril de 1996 passou, em abril de 2001, a projeto do Projor, organização social sem fins lucrativos constituída naquele mês.
O que o veículo faz na prática
O Observatório acompanha o desempenho da mídia brasileira e se apresenta como entidade civil, não governamental e apartidária. A proposta, escrita pelo próprio projeto, é tratar o produto jornalístico como serviço público, com deveres previstos na Constituição, sem fiscalizar a empresa como se fosse um concorrente comercial. O fórum é de leitores, ouvintes, telespectadores e internautas, não uma banca de representantes de veículos. A apresentação cita modelos estrangeiros, como a Fairness & Accuracy in Reporting e a Accuracy in Media, nos Estados Unidos, e o observatório francês ligado à formação de jornalistas. A experiência brasileira se declara herdeira dessa combinação, não de uma corrente partidária.
Em maio de 1998 o site ganhou edição de televisão, produzida pela TVE do Rio de Janeiro e pela TV Cultura de São Paulo, transmitida pela Rede Pública. O programa ficou no ar até 2016. Também houve versão em rádio. Na internet, o veículo mantém o ISSN 1519-7670 e continua a publicar edições numeradas, com crítica de cobertura, memória e laboratórios de jornalismo em universidades. Não encerrou com a morte de Dines, em 2018. A equipe publicada lista o fundador e segue com editoria própria, hoje sob responsabilidade de Denize Bacoccina, com direção do Projor.
O que não é
- Não substitui a ABI, a Fenaj, a Abert, a Associação Nacional de Jornais nem a Aner.
- Não é um telejornal de bancada nem um curso com certificado.
- Não é a coluna Jornal dos Jornais, embora essa coluna da Folha seja o antecedente direto.
- Não se confunde com o Grande Pequena Imprensa, outro projeto do Projor idealizado por Dines, voltado à capacitação de veículos regionais.
Como isso se liga a Dines, e como acessar
Antes do site, Dines já tinha ensaiado o gesto. Na Folha, a coluna Jornal dos Jornais comentava o que os outros jornais publicavam. Ele mesmo disse que não era um ombudsman, mas uma precursora. O Observatório é essa ideia com redação, periodicidade e tela. Em 2016, o Prêmio Abraji de contribuição ao jornalismo foi para ele e para o veículo, não só para a pessoa. Isso ajuda a separar as coisas: a crítica de mídia virou instituição, com ISSN, conselho e sucessor, e não um programa pessoal que acaba quando o apresentador sai.
O acesso é o próprio site, de leitura aberta, com edições antigas e textos novos. Há newsletter, mas a newsletter não é o veículo. Quem quer a crítica lê as edições. Quem quer a história institucional lê a página Sobre, onde estão a data de abril de 1996, a televisão de 1998, o Projor de 2001 e o nome do fundador. O Labjor permanece como parceiro de formação, no endereço da Unicamp. Não há mensalidade obrigatória nem promessa de carreira. O que o projeto oferece é mediação pública entre quem produz notícia e quem a recebe, que era o vazio que Dines queria ocupar quando pediu, na Folha, um espaço para falar da imprensa dentro da imprensa.



