Aos oito anos, Alberto Dines viu Stefan Zweig entrar na escola, no Rio de Janeiro. O suicídio do escritor em Petrópolis, em fevereiro de 1942, foi uma das primeiras mortes que ele acompanhou pelo jornal, e a razão pela qual o pai voltou da serra arrasado. Décadas depois, essa cena sustenta o livro que ainda coloca o nome de Dines na mesa de quem lê biografia: Morte no paraíso.
Quem procura Alberto Dines hoje não está atrás de um apresentador qualquer de televisão. Quer o jornalista que chefiou o Jornal do Brasil, abriu na Folha de S.Paulo a coluna Jornal dos Jornais e fundou o Observatório da Imprensa. Nasceu no Rio em 19 de fevereiro de 1932 e morreu em São Paulo em 22 de maio de 2018, aos 86 anos, no Hospital Israelita Albert Einstein, no Morumbi, depois de dez dias internado por uma gripe que virou pneumonia.
Quem foi Alberto Dines
Dines era carioca e de família judaica. A vida pública que ficou registrada começa cedo na redação: aos vinte anos já assinava crítica de cinema. O ofício atravessou revista, diário, cátedra, televisão e livro, sem caber num único cargo. Casou-se primeiro com Ester Rosali, sobrinha de Adolpho Bloch, com quem teve quatro filhos, e depois com a jornalista Norma Couri.
O nome responde a três perguntas que quase nunca vêm juntas. Uma é de redação: quem comandou o Jornal do Brasil na fase em que o diário virou modelo. Outra é de crítica: quem passou a tratar a imprensa como assunto, não só como veículo. A terceira é de estante: quem escreveu a biografia brasileira de Zweig e, no mesmo arco, o volume sobre a Inquisição que ganhou o Jabuti de 1993. Outro carioca que fez do impresso um ofício de vida inteira foi Antônio Houaiss, em chave de língua e dicionário, não de crítica de mídia.
Da crítica de cinema à chefia do Jornal do Brasil
A entrada no jornalismo foi em 1952, como crítico de cinema na revista A Cena Muda. No ano seguinte, Nahum Sirotsky o chamou para a Visão, primeiro na cobertura de teatro e cinema, depois em reportagem política. Em 1957 foi para a Manchete e saiu depois de desentendimentos com Adolpho Bloch, dono da empresa. Em 1959 assumiu a direção do segundo caderno da Última Hora, de Samuel Wainer. No ano seguinte colaborou na Tribuna da Imprensa e, a convite de João Calmon, dirigiu o Diário da Noite, dos Diários Associados de Assis Chateaubriand. Entre o fim da década de 1950 e o começo dos anos 1960, foi editor-chefe de Fatos e Fotos.
Em 1962 tornou-se editor-chefe do Jornal do Brasil. Ficou no cargo até a demissão de junho de 1973. Nesse intervalo o jornal consolidou a reforma gráfica e editorial que a Folha, ao reconstruir a carreira, descreveu como modelo para o diário impresso no Brasil. Ainda em 1964, Dines publicou Os idos de março e a queda em abril, narrativa do golpe em que critica o presidente deposto e chega a descrever a repressão dos primeiros dias como dura, porém necessária. A posição não ficou parada. Em 1968, à frente do mesmo jornal, condenou a censura e criticou o Ato Institucional nº 5. Convidado a paraninfar uma turma da PUC-Rio logo depois do AI-5, fez um discurso contra a censura, foi preso em dezembro daquele ano e submetido a inquérito. A demissão de 1973 veio por outro atrito: um artigo que contrariava a direção ao criticar a relação dos donos do jornal com o governo do estado do Rio de Janeiro.
Columbia, a Folha e a coluna que olhava para dentro
Em 1974 foi professor visitante da Escola de Jornalismo da Universidade Columbia, em Nova York. Voltou ao Brasil no ano seguinte, chamado por Cláudio Abramo para dirigir a sucursal da Folha de S.Paulo no Rio. Aceitou escrever sobre política com uma condição: pediu a Octavio Frias um espaço para discutir a própria imprensa. Nasceu a coluna Jornal dos Jornais. O próprio Dines recusou o rótulo fácil. Disse que a coluna não era um ombudsman, mas funcionava como precursora. Ela está na origem do Observatório e, em 1999, recebeu o Prêmio Esso de melhor contribuição à imprensa.
O magistério vinha de antes da viagem aos Estados Unidos. Desde 1963 dava aula de jornalismo, com passagem pela PUC-Rio até 1966, onde criou a disciplina de Jornalismo Comparado, depois absorvida por currículos de comunicação pelo país. Em 1980 deixou a Folha e passou a colaborar no Pasquim. Mais tarde morou em Lisboa como secretário editorial do Grupo Abril e lançou em Portugal a revista Exame. A ida não foi um exílio literário: era cargo de editora, com revista de negócios para pôr de pé.
Por que o Observatório da Imprensa existe
A página do próprio veículo organiza a cronologia melhor do que a memória solta. O nome Observatório da Imprensa apareceu primeiro em Lisboa, três meses antes do observatório francês fundado em setembro de 1995. No Brasil, o site entrou no ar em abril de 1996, como projeto do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp, o Labjor, com o endosso do então reitor Carlos Vogt. Dines foi um dos responsáveis por criar o laboratório, ao lado de Vogt e de José Marques de Melo, e nele atuou como pesquisador sênior. Em abril de 2001 a versão online passou ao Projor, Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo, organização sem fins lucrativos constituída naquele mês. Na equipe publicada, Dines figura como fundador.
Em maio de 1998 o Observatório ganhou edição de televisão, produzida pela TVE do Rio e pela TV Cultura de São Paulo e levada pela Rede Pública. O programa ficou no ar até 2016. Houve também versão em rádio. A frase que circula com o nome dele cabe nesse desenho: todo jornalismo é investigativo, ou não é jornalismo. O site segue no ar, com ISSN 1519-7670, como fórum de crítica da mídia. A própria apresentação avisa o que ele não é: não compete com a ABI, a Fenaj, a Abert, a Associação Nacional de Jornais nem a Aner.
Os livros que seguram o nome na estante
Dines publicou mais de quinze livros. Três explicam a busca melhor do que uma lista completa. Morte no paraíso, lançado em 1981 pela Nova Fronteira e revisto em edições posteriores da Rocco, acompanha Zweig do exílio europeu à morte em Petrópolis. O volume foi base do filme Lost Zweig, dirigido por Sylvio Back em 2002. Vínculos do fogo, tomo I, saiu em 1992 pela Companhia das Letras: a vida de Antônio José da Silva, o Judeu, morto pela Inquisição lisboeta em 1739, e um painel de dois séculos de cristãos-novos entre Portugal e o Brasil. O livro, de mais de mil páginas, levou o Jabuti de Estudos Literários em 1993. O segundo tomo não chegou a sair. O papel do jornal, de 1974, chegou em 2009 à nona edição, pela Summus, com o título O papel do jornal e a profissão de jornalista. Ética, interesse público e o exercício do ofício são o miolo. A crise do papel de imprensa nos anos 1970 era o pretexto de época, não o limite do argumento.
Prêmios e o que ainda se consulta
- 1970: Prêmio Maria Moors Cabot, da Columbia Journalism School.
- 1993: Jabuti de Estudos Literários, por Vínculos do fogo.
- 1999: Prêmio Esso de melhor contribuição à imprensa, pela coluna Jornal dos Jornais.
- 2007: Austrian Holocaust Memorial Award.
- 2009: condecoração austríaca para ciência e arte.
- 2010: Ordem do Mérito das Comunicações, no grau Grã-Cruz.
- 2012: Prêmio Especial Vladimir Herzog.
- 2016: Prêmio Abraji de contribuição ao jornalismo, com o Observatório da Imprensa.
- 2018: prêmio de liberdade de imprensa da Associação Nacional de Jornais, concedido depois da morte.
Em 15 de agosto de 2005, aos 73 anos, deu depoimento ao Museu da Pessoa no projeto Herzog Hoje, sobre a morte de Vladimir Herzog e o funcionamento das redações sob o regime militar. O Labjor segue como centro de formação em jornalismo na Unicamp. Quem chega pelo livro encontra Zweig, a Inquisição ou o ofício de redação. Quem chega pela crítica de mídia cai no Observatório, que não encerrou com o fundador. A nota da Folha de S.Paulo no dia da morte resume o arco: do JB à coluna que obrigou o jornal a olhar para si mesmo.




