O papel do jornal e a profissão de jornalista é o livro em que Alberto Dines trata o diário impresso como instituição, não como mercadoria de banca. A primeira edição é de 1974, quando ele já tinha saído da chefia do Jornal do Brasil e o país ainda vivia sob censura. A nona edição, revista, atualizada e ampliada, saiu pela Summus em 2009, na coleção Novas Buscas em Comunicação, com 192 páginas e ISBN 978-85-323-0653-1. A editora marca os 35 anos do título. O contexto de 1974 não é o de 2009. Ética, exercício da profissão e interesse público continuam no centro.
O livro nasceu colado a uma crise concreta: a do papel de imprensa. Produção, consumo, importação e preço do papel ameaçavam a edição do dia seguinte, e vários jornais encolheram o número de páginas para continuar circulando. Dines, ex-diretor de redação do Jornal do Brasil, usou esse aperto para falar do que o diário faz quando o insumo acaba e quando o poder aperta. A frase que abre muitas lembranças do livro é dele: o jornal, desde 1605, absorveu obscurantismo, revolução industrial, guerra, televisão e recessão, e seguiu como o veículo mais institucionalizado de todos.
O que a edição da Summus discute
A Summus apresenta a nona edição como retomada de um ponto que Dines já tinha marcado em 1985: a exigência do diploma de jornalismo para o exercício da atividade. O debate do diploma mudou no Brasil depois dessa edição, mas o livro não se resume a essa tese. O miolo é a função do jornal diante do leitor. Em textos espalhados pela carreira, Dines separou cidadão de consumidor e tratou o jornalismo como serviço público, não como espetáculo. A edição de 2009 é o lugar em que esse argumento aparece organizado, com a distância de três décadas e meia sobre o original.
Não é autobiografia da chefia do JB, embora a experiência de redação esteja por trás de cada capítulo. Não é manual de técnica, com lead, pirâmide e checklist de apuração. Quem procura um passo a passo de reportagem vai se frustrar. Quem procura o motivo pelo qual um diário existe, e o que acontece quando a redação vira departamento comercial, encontra o livro certo. Estudantes de jornalismo aparecem com frequência entre os leitores, e a própria Summus fala a esse público. Editores e repórteres mais velhos voltam a ele quando a discussão sobre ética reaparece com outro vocabulário.
Como esta edição se diferencia das anteriores
- Origem em 1974, no meio da crise do papel e da censura.
- Nona edição em 2009, pela Summus, revista e ampliada.
- 192 páginas, formato 17 por 24 centímetros, coleção Novas Buscas em Comunicação.
- Ética, interesse público e a discussão do diploma, retomada a partir de 1985.
- Não é memórias de redação nem cartilha de técnica.
Onde o livro entra na trajetória
Na Wikipedia em português, O papel do jornal: uma releitura aparece como a obra maior de Dines, ao lado da biografia de Zweig. A Folha, no texto sobre a carreira, chamou O papel do jornal de talvez o mais influente livro sobre jornalismo publicado no país, com reedições revistas, inclusive em formato digital. Isso não transforma o volume num oráculo. Transforma num texto que gerações de redação leram quando precisavam de um argumento contra a ideia de que o jornal é só negócio de papel e anúncio.
O lugar dele na estante de Dines é distinto de Morte no paraíso e de Vínculos do fogo. Aqueles dois são biografias históricas. Este é um livro de ofício. Ler os três evita o retrato incompleto: o biógrafo de Zweig também escreveu, a partir de 1974, o ensaio de ofício que a Summus reeditou em 2009. A edição da Summus é a rota clara para quem quer esse texto em português, com a revisão que comemora os 35 anos, e não um sebo sem data de impressão. O preço de capa muda e não deve ser tratado como número fixo.



