Mundo adentro vida afora é a autobiografia em que Antônio Bivar conta a vida do nascimento, em 1939, até o embarque para Londres, em 1970. O subtítulo da edição da L&PM deixa o recorte explícito: autobiografia do berço aos trinta. Não é o livro do exílio. Esse vem depois, em Verdes vales do fim do mundo e em Longe daqui, aqui mesmo. Aqui o assunto é a formação: interior paulista, ginásio, Rio de Janeiro, as primeiras peças e o teatro que o tirou do anonimato.
A L&PM publicou o volume em 2014, com ISBN 978-85-254-3169-1. A edição impressa fica em torno de 216 páginas. Há também e-book. O cenário que a editora descreve é o das décadas de 1960 e 1970: de um lado, flower power, Maio de 68 e contracultura; do outro, ditadura, luta armada e repressão. Nesse intervalo, um grupo de dramaturgos jovens passou a ser chamado de nova dramaturgia. Bivar estava nele.
O que a memória cobre
O relato volta à infância no interior de São Paulo nos anos 1940, à adolescência nos anos 1950 e à juventude no Rio e em São Paulo nos anos 1960. O teatro entra por um ensaio concreto: decorar Estragon em Esperando Godot. Dali saem o teatro amador, a parceria com Carlos Aquino e as peças que o tornaram conhecido, Cordélia Brasil, Abre a janela e deixa entrar o ar puro e o sol da manhã e O cão siamês ou Alzira Power. A editora lembra os prêmios da época, entre eles o Molière e o da Associação Paulista de Críticos de Arte.
Fernanda Montenegro, na orelha reproduzida pela L&PM, escreveu que Bivar tinha a qualidade de ser o detonador de um tipo de teatro contestador dos anos 1960, com personagens distantes do realismo. O livro não discute essa frase. Mostra o caminho até ela: revistas ilustradas da infância, cinema de estúdio americano e, de repente, a sala de ensaio. Pelo texto passam Norma Bengell, Leila Diniz, Otto Maria Carpeaux, Elis Regina, Danuza Leão, Antônio Houaiss, Millôr Fernandes, Barbara Heliodora e Antônio Fagundes. São encontros de uma vida já pública, não um índice de celebridades.
Como este volume se separa dos outros
Quem quer a Londres do punk e de Virginia Woolf precisa dos livros seguintes. Mundo adentro vida afora para em 1970, na ida. Quem quer só a ficha das peças também se frustra: o teatro aparece como experiência, não como programa de espetáculo. O leitor certo é quem procura o autor antes da fama de memorialista, no ponto em que office-boy, conservatório e plateia ainda cabem no mesmo capítulo.
A edição impressa da L&PM e o e-book carregam o mesmo recorte. Não faz sentido tratar os dois formatos como livros diferentes: o miolo é a autobiografia até 1970, com o teatro brasileiro dos anos 1960 no centro, e não a Londres que vem no volume seguinte. A capa comum da L&PM é a rota direta para esse texto.



