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Antônio Bivar

Antonio Bivar

Nascimento: 1939 São Paulo, SP
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Dramaturgo e escritor paulista. Autor de Cordélia Brasil e de O que é punk, organizou o festival O Começo do Fim do Mundo.

Em 27 e 28 de novembro de 1982, Antônio Bivar reuniu no Sesc Pompeia as bandas que a grande imprensa ainda olhava de lado: Inocentes, Olho Seco, Cólera e Ratos de Porão. O festival se chamava O Começo do Fim do Mundo. Quem chega ao nome só por causa do punk encontra, do outro lado, o dramaturgo que em 1968 estreou Cordélia Brasil com Norma Bengell e recebeu o Prêmio Molière por Abre a janela e deixa entrar o ar puro e o sol da manhã.

Antônio Bivar Battistetti Lima nasceu em São Paulo em 25 de abril de 1939 e morreu na mesma cidade em 5 de julho de 2020, aos 81 anos, por complicações respiratórias da Covid-19. Entre o palco e o livro, foi dramaturgo, memorialista, biógrafo, jornalista, tradutor, ator, roteirista e diretor de shows. A busca pelo nome quase sempre entra por uma dessas portas: a peça premiada, o ensaio sobre punk, a temporada em Londres ou o estudo de Virginia Woolf.

De São Paulo ao Conservatório Nacional de Teatro

A infância correu entre a capital e fazendas do interior paulista. Na adolescência, a família se mudou para Ribeirão Preto. Antes do teatro, trabalhou como office-boy e auxiliar de escritório. Aos 21 anos foi para o Rio de Janeiro estudar arte dramática na Fundação Brasileira de Teatro e no Conservatório Nacional de Teatro, onde se formou. Em entrevista ao programa Metrópolis, da TV Cultura, em 2015, ele descreveu o ginásio como um obstáculo repetido: ficou quatro anos na primeira série. A frase ajuda a ler o autodidata que, décadas depois, frequentaria a fazenda e a família de Virginia Woolf sem ocupar cadeira de universidade.

O teatro entrou cedo pela via prática. Para decorar o papel de Estragon em Esperando Godot, de Samuel Beckett, ele passou a tratar o texto como ofício, não como matéria escolar. Essa cena reaparece em Mundo adentro vida afora, o volume da L&PM em que conta a vida até os trinta anos.

Cordélia Brasil, o Molière e a geração de 1969

A Enciclopédia Itaú Cultural marca Cordélia Brasil, de 1968, como o início da trajetória profissional. Emílio di Biasi dirigiu. A peça abriu no Rio de Janeiro e seguiu temporada no Teatro de Arena, em São Paulo, com Norma Bengell. O texto rendeu a Bivar o Prêmio Governador do Estado de São Paulo. No mesmo ano, Abre a janela e deixa entrar o ar puro e o sol da manhã lhe deu o Prêmio Molière de melhor autor. Os títulos longos já eram marca. A primeira montagem, escrita com Carlos Aquino, chamava-se Simone de Beauvoir, pare de fumar, siga o exemplo de Gildinha Saraiva e comece a trabalhar.

O crítico Anatol Rosenfeld agrupou Bivar na chamada geração de 1969, ao lado de Leilah Assumpção, Isabel Câmara, Consuelo de Castro e José Vicente. A nova dramaturgia recusava o realismo de manual e misturava absurdo, deboche e pop. Em 1969 veio O cão siamês de Alzira Porra-Louca. No ano seguinte, já na Inglaterra, Bivar reescreveu a peça como Alzira Power a pedido de Antônio Abujamra. Yolanda Cardoso estreou. O espetáculo levou o Prêmio Governador do Estado do Rio de Janeiro, enquanto outras obras do autor eram interditadas pela censura.

O enredo cabe numa sala. Alzira, funcionária pública aposentada de 41 anos, tranca Ernesto, corretor de automóveis de 23, e conduz um quase monólogo em que os dois se revezam na crueldade. A Enciclopédia Itaú Cultural aponta referências a August Strindberg, Jean-Paul Sartre, Edward Albee, Samuel Beckett e Eugène Ionesco, e um coloquialismo próximo de Nelson Rodrigues e Plínio Marcos. São dramas curtos, de poucas personagens e um só cenário. O humor não alivia o conflito: desloca o lugar de quem manda na cena.

Londres, a censura e a corte de Bloomsbury

Entre 1970 e 1972, Bivar passou a maior parte do tempo fora do Brasil. A relação com a ditadura militar tinha se deteriorado e a censura pesava sobre a dramaturgia. Morou em Londres e circulou por Nova York, Paris e Dublin. No mesmo circuito estavam brasileiros então exilados, entre eles Gilberto Gil, Caetano Veloso, Jorge Mautner e Leilah Assumpção. O relato dessa temporada de um ano e uma semana virou, anos depois, Verdes vales do fim do mundo. No obituário da Folha de S.Paulo, o amigo Aimar Labaki chamou esses livros sobre o exílio em Londres de o melhor registro daquele episódio.

Foi em Londres que ele viu nascer o punk. Também foi na Inglaterra que aprofundou o estudo de Virginia Woolf e do Grupo de Bloomsbury. Por mais de uma década frequentou a fazenda e a família da escritora. Ficou próximo de Quentin Bell, sobrinho e biógrafo de Woolf, e de Anne Olivier Bell. O diário desses anos saiu em 2005 como Bivar na corte de Bloomsbury, pela editora A Girafa. Perfis públicos o descrevem como o único brasileiro membro da Virginia Woolf Society of Great Britain e o único latino-americano nos encontros anuais de estudiosos de Bloomsbury. Na entrevista de 2015, ele resumiu o ofício numa frase seca: “Eu escrevo porque acho que já nasci sabendo. O resto eu não sei de nada.”

Shows, jornal e o festival de 1982

De volta ao Brasil, a mão foi parar também na música. Dirigiu o show Drama, Luz da Noite, de Maria Bethânia, em 1973, e Fruto Proibido, de Rita Lee, em 1975. Escreveu para jornais como Flor do Mal e Presença, teve coluna na Revista J.P. e, segundo Labaki, editou as revistas AZ e Around, nas quais assinava boa parte dos textos. Com Alcyr Costa, escreveu Gente fina é outra coisa, encenada no Teatro de Arena em 1976. Quarteto, de 1977, foi escrito para os 50 anos de carreira de Ziembinski.

O que é punk saiu em 1982 pela Brasiliense, na coleção Primeiros Passos, escrito no calor da cena que ele acompanhava de dentro. No mesmo ano organizou O Começo do Fim do Mundo. Além de Inocentes, Olho Seco, Cólera e Ratos de Porão, a Folha registra no cartaz bandas que ficaram menos na memória, como Estado de Coma, Passeatas, Hino Mortal e o grupo feminino Skisitas. Em 2018, a Edições Barbatana relançou o ensaio com o título curto Punk, prefácio novo do próprio Bivar e posfácio de Kiko Dinucci.

No cinema e na televisão, o nome aparece como roteirista de Cordélia, Cordélia (1971) e de A Carne (1975), e na série TVLeezão (1991). Em 1970 atuou em Carnaval na Lama. São créditos laterais. O centro continua sendo o texto de teatro e, depois, a prosa de memória.

O que ele queria que lessem

A partir dos anos 1980, a prosa passou a ocupar o centro. Bivar preferia chamar de autobiografias os livros de memória: Verdes vales do fim do mundo, Longe daqui, aqui mesmo, Bivar na corte de Bloomsbury e Mundo adentro vida afora, este último publicado pela L&PM em 2014 e dedicado aos anos que vão do nascimento até a ida para Londres. No meio do caminho há biografias de outras pessoas. Yolanda trata da mecenas Yolanda Penteado. Jack Kerouac, o rei dos beatniks saiu na coleção Encanto Radical da Brasiliense. James Dean é de 1984, também pela Brasiliense. Há ainda o romance Chic-a-Boom, os Contos atrevidos e Perseverança, autobiografia lançada em 2019 pela Humana Letra, meses antes da morte.

Quem quiser o teatro reunido encontra O teatro de Antônio Bivar: as três primeiras peças, edição da Imprensa Oficial de 2010, na coleção Aplauso. No mesmo ano, a atriz Maria Lúcia Dahl publicou, também pela Imprensa Oficial, o perfil Bivar, o explorador de sensações peregrinas. Em Mundo adentro vida afora, o relato cruza o teatro amador com nomes que depois viraram capítulo à parte da cultura brasileira, entre eles Antônio Houaiss, Millôr Fernandes, Danuza Leão, Elis Regina e Antônio Fagundes. O mapa dessas obras conversa com a estante de literatura, mas a pergunta que organiza a vida pública dele é outra: como o mesmo autor atravessa o Molière, a mochila em Londres, o festival punk e a corte de Bloomsbury sem trocar de voz.

  • Cordélia Brasil (1968), com Norma Bengell e direção de Emílio di Biasi, Prêmio Governador do Estado de São Paulo.
  • Abre a janela e deixa entrar o ar puro e o sol da manhã (1968), Prêmio Molière de melhor autor.
  • Alzira Power, reescrita em 1970 para Antônio Abujamra, Prêmio Governador do Estado do Rio de Janeiro.
  • O que é punk, pela Brasiliense em 1982, relançado como Punk pela Barbatana em 2018.
  • O Começo do Fim do Mundo, em 27 e 28 de novembro de 1982, no Sesc Pompeia.

O hospital Sancta Maggiore

Bivar foi internado em 23 de junho de 2020 no Hospital Sancta Maggiore, em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. Morreu no início da tarde de 5 de julho, por complicações respiratórias da Covid-19. A Folha registrou que deixou irmãos e sobrinhos. Registros biográficos também apontam casamento com Jenny Thompson entre 1993 e 2008. Não há site pessoal nem rede social oficial verificável em seu nome. O que permanece em circulação são as peças, os livros de memória e o ensaio que ainda serve de porta de entrada para quem quer entender o punk brasileiro a partir de quem viu a cena nascer em Londres e estourar em São Paulo.

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Punk
Punk
Ensaio de Antônio Bivar sobre o punk, da Londres dos anos 1970 à cena de São Paulo, saído em 1982 e relançado pela Barbatana em 2018.
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