Verdes vales do fim do mundo é o livro de memórias em que Antônio Bivar conta um ano e uma semana entre Estados Unidos e Europa, com residência em Londres, no começo dos anos 1970. O gatilho público é o Prêmio Molière de Abre a janela e deixa entrar o ar puro e o sol da manhã e a decisão de sair do Brasil quando a censura apertava a dramaturgia. Não é guia de viagem. É o diário de um dramaturgo de trinta e poucos anos, com mochila, pouco dinheiro e a casa dos amigos como endereço.
A primeira edição é dos anos 1980. A Wikipédia aponta 1985, pela L&PM. A revista Trip, ao noticiar a reedição, situa o texto original em 1984 e trata o volume como um cult que tinha ficado difícil de achar. A edição de bolso da L&PM que circula com ISBN 978-85-254-1170-9 tem 214 páginas e traz na capa a Catedral de Salisbury vista do rio, um cartão direto da Inglaterra que o livro percorre. O código de barras e a coleção Pocket identificam essa tiragem, não um outro título.
O que está dentro do diário
O trajeto passa pela Inglaterra, por uma estada curta em Nova York e Paris e por um Ano-Novo em Dublin. Bivar se divide entre a casa de amigos velhos e novos. Entram as reuniões na casa de Gilberto Gil, a companhia de Caetano Veloso, o entusiasmo de Antônio Abujamra e o apartamento de Jorge Mautner. Entra também o festival da Ilha de Wight, citado pela editora ao lado de Jim Morrison, Jimi Hendrix e Janis Joplin, como marca do fim de uma ilusão de fraternidade que ainda parecia possível no começo da década. Rogério Sganzerla e Helena Ignez aparecem no mesmo círculo de brasileiros que circulavam pela Europa naquele período.
Aimar Labaki, no obituário da Folha, foi direto: os livros de Bivar sobre o exílio em Londres, e Verdes vales do fim do mundo é o primeiro deles, seriam o melhor registro daquele episódio. O tom é o da contracultura dos anos 1970, com comunidades, festivais e a estrada, sem transformar o autor em porta-voz de um movimento. Ele está ali como testemunha que também se diverte e se perde.
Onde este livro acaba
A continuação é Longe daqui, aqui mesmo, que retoma a volta ao Brasil em 1971 e os dois anos seguintes, com uma segunda temporada em Londres entre 1971 e 1973. Quem lê só Verdes vales fica na primeira saída. Quem espera o ensaio sobre punk também se engana de volume: O que é punk é de 1982 e olha para a música. Aqui o punk ainda é coisa vista nas ruas de Londres, não capítulo de coleção Primeiros Passos.
A capa com a Catedral de Salisbury identifica a coleção Pocket da L&PM, ISBN 9788525411709. Exemplares mais antigos, de quando o livro virou cult de sebo, trazem o mesmo diário sem esse acabamento de bolso. O texto que interessa é o da primeira saída, separado da autobiografia de formação e do ensaio sobre o movimento.



