Punk, de Antônio Bivar, é o ensaio que saiu primeiro como O que é punk, em 1982, pela Editora Brasiliense, na coleção Primeiros Passos, e voltou em 2018 pela Edições Barbatana. A reedição traz prefácio escrito pelo próprio autor naquele ano, posfácio e ilustrações de Kiko Dinucci, sobrecapas e um caderno de fotos. Não é um livro novo sobre o mesmo assunto. É a mesma obra, com o título encurtado e um aparato que o volume de bolso dos anos 1980 não tinha.
Bivar escreveu de dentro da cena. Tinha visto o punk nascer em Londres, na temporada em que morou na cidade entre 1970 e 1972, e acompanhou de perto o que acontecia em São Paulo e no ABC no começo dos anos 1980. O texto liga Sex Pistols, Ramones, New York Dolls, Stooges e Damned ao que se passava aqui, com Olho Seco, Inocentes, Restos de Nada e Garotos Podres, e com nomes de encontro como Clemente Nascimento e Kid Vinil. A frase que a edição repete desde a coleção Primeiros Passos cabe no projeto: punk, antes de ser música, é uma atitude.
O que o volume entrega
A edição da Barbatana, de maio de 2018, reimpressa em julho de 2021, tem 136 páginas, formato 12 por 19 centímetros, papel pólen e ISBN 978-85-64155-18-3. Entra na série Outros Passos. O original da Brasiliense alcançou seis edições e várias tiragens, o que explica por que o livrinho de bolso ainda aparece em sebos ao lado da reimpressão ilustrada. Quem compra a Barbatana leva o ensaio de 1982 mais o prefácio tardio, as gravuras e o caderno fotográfico. Quem acha um exemplar antigo da coleção Primeiros Passos leva o texto no calor da hora, sem esse aparato.
O livro não é discografia, nem manual de visual, nem história acadêmica do movimento. É um relato de quem organizou, no mesmo 1982, o festival O Começo do Fim do Mundo, no Sesc Pompeia, com Inocentes, Olho Seco, Cólera e Ratos de Porão. A capa da reedição chega a grafitar “fim do mundo” por cima da colagem. A coincidência não é enfeite: o ensaio e o festival saíram do mesmo ano e da mesma convivência.
Para quem serve, e onde o texto foi contestado
Serve a quem quer a porta brasileira mais antiga e mais citada para entender o punk sem começar por verbete de enciclopédia. Também serve a quem já conhece as bandas e quer o olhar de um dramaturgo que chegou ao movimento pela contracultura londrina, não pelo porão do ABC. Historiadores depois questionaram o quanto esse olhar fixou uma narrativa centrada em Londres e Nova York. Um artigo de 2025 na revista Expedições trata O que é punk como peça de um “mito fundador”, útil e ao mesmo tempo estreito, porque deixa de lado apropriações locais. Ler o livro hoje inclui esse debate. Não o substitui.
A melhor rota para a edição ilustrada é a página do título Punk, de Antonio Bivar, na Amazon brasileira, correspondente ao ISBN da Barbatana. O exemplar da Brasiliense, quando aparece, é outra tiragem da mesma obra, não um segundo livro.



