Mundo mudo saiu em 2003 pela Nankin Editorial e ocupa um lugar de charneira na obra de Donizete Galvão: é o livro em que a metrópole deixa de ser cenário e passa a ser matéria central. São 104 páginas em que o poeta observa a cidade e os seus anônimos, sem abrir mão da memória rural que atravessa toda a sua poesia.
Na entrevista que deu à Folha de S.Paulo no lançamento, o autor explicou o que perseguia: "dar voz às pessoas, objetos e lembranças que não teriam espaço no mundo dos grandes espetáculos". E deixou claro que a Borda da Mata dos poemas era, antes de tudo, uma construção da imaginação, um mito pessoal erguido para se contrapor à São Paulo desencantada.
O que os poemas mostram
O livro acompanha a vida na cidade grande e o que ela costuma esconder: moradores de rua, corpos baleados, dores esquecidas. Um dos poemas do volume, "Objetos", transforma homens em mercadoria diante das feiras, "badulaques pendurados como galinhas na peia", para falar de trabalho, consumo e abandono. A linguagem segue direta, sem experimentalismo, o que dá aos poemas uma força quase documental.
A ponte entre dois mundos
O que sustenta o livro é a tensão entre dois espaços: o interior de Minas, tratado como memória e perda, e a metrópole, tratada como presente áspero. Nenhum dos dois é idealizado. O poeta recusa tanto a nostalgia fácil do campo quanto a fascinação pela cidade, e é dessa recusa que nasce a voz do livro.
Por que ler Mundo mudo hoje
Para quem lê a obra completa, é o título que prepara O homem inacabado e O antipássaro: a partir dele, a cidade e o tempo passam a dominar a poesia de Galvão. Para quem quer um retrato da poesia brasileira dos anos 2000, é um livro representativo de uma geração que tratou o cotidiano urbano com rigor formal. A edição da Nankin circula em sebos e livrarias e é uma boa porta de entrada para a fase mais conhecida do autor.





