O homem inacabado, publicado em 2010, marcou o retorno de Donizete Galvão à poesia depois de sete anos sem um livro solo, já que o anterior era Mundo mudo, de 2003. O volume de 80 páginas investiga o que o título anuncia: a condição de um homem que nunca se completa, dividido entre o desânimo e a busca de pequenas saídas.
Os poemas se dividem em duas direções. De um lado, os que exploram o enclausuramento, o impasse e a passagem do tempo; de outro, os que encontram alívio na atenção ao que é mínimo, como a aparição dos objetos, uma romã aberta ou o círculo que o café desenha no pires. A arte aparece como uma dessas saídas: há poemas que dialogam com as artes plásticas, a exemplo de "Blues para Niura", inspirado na obra de uma artista contemporânea.
Um livro sobre precariedade
A investigação do autor aqui é a da fragilidade humana diante do tempo. Os poemas não prometem superação: trabalham a hesitação, a humildade diante das coisas e a consciência de que o corpo envelhece enquanto a cidade segue indiferente. É uma poesia de baixa intensidade aparente, mas de alta precisão, em que cada imagem é escolhida para sustentar o raciocínio do poema.
Reconhecimento
O homem inacabado foi finalista do Prêmio Portugal Telecom, um dos mais importantes da literatura de língua portuguesa. Na Revista Cult, a crítica Annita Costa Malufe escreveu que o resultado do livro é "dos mais sensíveis" ao tratar da vivência de nossa precariedade, e chamou a atenção para os poemas que encontram saídas na observação de coisas mínimas.
Para quem é este livro
É a porta de entrada indicada para quem prefere começar pela fase madura do poeta, quando os temas da cidade, do corpo e do tempo já estão plenamente desenvolvidos. Também interessa a leitores que acompanham a poesia brasileira contemporânea e querem entender como uma geração lidou com o desencanto sem abrir mão do lirismo.





