Netto perde sua alma não é a biografia do general Antônio de Souza Netto. Tabajara Ruas escreveu isso na apresentação e repetiu o aviso: é uma ficção a respeito dele, uma invenção, um sonho seu e de outros homens. O leitor que chega pelo nome do caudilho farroupilha precisa aceitar esse contrato logo na primeira página, senão cobra do romance um arquivo que o autor se recusou a fingir que tinha.
A história se passa, no presente da narrativa, em 1º de julho de 1866. Netto está ferido na Guerra do Paraguai e se recupera no Hospital Militar de Corrientes, na Argentina. Dali a memória volta às guerras de fronteira e à Farroupilha. O livro é curto perto de Os varões assinalados: a edição da Record, de 2001, tem cerca de 160 páginas. A primeira publicação em livro, pela Mercado Aberto, é de 1995. Em 1996, o romance recebeu o Troféu Açorianos de Literatura na categoria narrativa longa.
Por que ele não coube num epílogo
Ruas contou que descobriu Netto aos poucos, lendo para escrever Os varões assinalados. O romance novo nasceu da pergunta dos leitores sobre o destino daquela gente. A ideia era um epílogo de umas trinta páginas. Virou novela, depois livro autônomo, com personagens que atravessam as duas obras. Ler este sem o épico é possível. Ler os dois mostra o mesmo século XIX em escalas diferentes: o decênio da guerra, num volume; o homem ferido, no outro, já depois, num quarto de hospital.
O general histórico participou da Farroupilha e de conflitos posteriores na fronteira sul. O romance usa esse lastro e inventa o resto. Ruas não esconde o procedimento. Quem procura “o que aconteceu de verdade com Netto” encontra aqui uma resposta literária, não uma cronologia fechada. O interesse está justamente nisso: um herói de estátua reduzido a corpo ferido, memória e invenção.
O filme que saiu do livro
O romance deu origem ao longa Netto perde sua alma, codirigido por Tabajara Ruas e Beto Souza, com roteiro dos dois, a partir da obra. O filme circulou em 2001. No Festival de Gramado daquele ano, recebeu quatro Kikitos, entre eles o prêmio especial e o de melhor filme pelo júri popular. Werner Schünemann vive o general. A ficha da Record, na edição impressa, liga livro e filme sem transformar um no cartaz do outro: o livro veio antes, o prêmio literário é de 1996, o Kikito é de 2001.
Quem viu o filme e quer a prosa encontra diferenças de duração e de foco. O livro cabe numa tarde. O filme precisa de batalha, elenco e paisagem de fronteira. Os dois compartilham o aviso do autor. Nenhum dos dois se vende como documentário do general.
Qual edição comprar
A edição da Record de 2001, ISBN 978-85-01-06264-2, continua identificável na Amazon e na página da editora. Houve ainda uma edição posterior da Besouro Box, por volta de 2016, anunciada como oitava. O texto é o mesmo romance, não uma sequência. Para quem quer o livro que originou o filme premiado em Gramado, qualquer dessas edições em português serve. O volume da Record é o que está ligado, na ficha comercial, ao lançamento de setembro de 2001 e ao relato do hospital em Corrientes.
Não há, no miolo, promessa de esgotar a Farroupilha. Isso fica em Os varões assinalados. Aqui o assunto é outro: o que resta de um caudilho quando a guerra já não cabe na estátua e a frase do autor — ficção, invenção, sonho — ainda está impressa na abertura.



