Perseguição e cerco a Juvêncio Gutierrez cabe num fim de semana e mesmo assim carrega o título que a biografia pública de Tabajara Ruas trata como obra central. O livro saiu em 1990, pela L&PM, numa tiragem pequena. Voltou várias vezes, passou pela Record e retornou à L&PM em maio de 2022, com 136 páginas, ISBN 978-65-5666-258-9. Não é um épico de quinhentas páginas. É um romance de fronteira, contado por um menino.
O narrador tem treze anos. A cidade é Uruguaiana, nos anos 1950, com o rio Uruguai ao lado e a Argentina do outro lado da ponte. Num sábado, duas coisas acontecem juntas: a final de um campeonato de futebol de garotos e a volta de Juvêncio Gutierrez, tio do narrador, irmão da mãe, contrabandista que decide deixar o exílio na Argentina. O delegado, inimigo dele, espera na estação. O livro anda desse anúncio até a madrugada de domingo.
O que é memória e o que é invenção
Ruas nasceu em Uruguaiana em 1942 e escreveu o romance na volta do exílio, já no fim dos anos 1980 e na entrada dos anos 1990. Ele contou que a casa da família ficava perto do rio e da ponte e que via o trem passar. Também disse que colegas leram o livro como relato sério de viver uma ditadura, de sair sem documentos e sem data de retorno. O enredo, porém, é ficção. Juvêncio não é uma pessoa civil identificada em cartório nestas páginas. É personagem: contrabandista, boa-vida, homem que volta sabendo do risco.
O nome sugere aventura de perseguição. O miolo é romance de formação. O destino do tio serve de fundo para o sábado em que o sobrinho deixa de entender o mundo dos adultos só pela metade. Há futebol, estação, delegado, corpo, pai do menino. Há também o que o Correio do Povo, ao republicar um artigo de 1991, apontou como obsessão do autor: enfrentar a guarda. Juvêncio enfrenta o cerco. O pai enfrenta o delegado. Os dois estão à margem — um por contrabando e exílio, o outro, no texto crítico, ligado ao Partido Comunista numa época de ilegalidade.
Por que o livro voltou em 2022
A L&PM apresenta a reedição como um clássico latino-americano e lembra dois encaixes públicos. O título entrou na lista dos trinta melhores romances brasileiros da revista Rascunho, organizada por Luiz Ruffato. O personagem Juvêncio Gutierrez apareceu entre os mais importantes da literatura gaúcha do século XX numa lista da Zero Hora. O poeta uruguaio Washington Benavides escreveu, no El País de Montevidéu, que já era hora de ler o livro como clássico latino-americano. São julgamentos de crítica e de imprensa, não medição de vendagem. Explicam por que um romance curto de fronteira continua sendo reimpresso trinta anos depois da primeira L&PM.
A edição de 2022 é o caminho atual de compra no catálogo da editora. Exemplares da Record, de 2003, e de outras impressões seguem no mercado de usados. O texto de base é o de 1990. Não há sequência com outro título. Quem compra a reedição leva o mesmo sábado em Uruguaiana, não um spin-off.
O filme que ainda não fecha a obra
Ruas quis levar o romance às telas. Em setembro de 2023, descreveu a adaptação como praticamente concluída. Em setembro de 2024, disse à Gazeta do Sul que o filme seguia em finalização, com estreia prevista para 2025. Enquanto essa estreia não estiver confirmada em circuito, a versão pública acabada é o livro. Ler a novela esperando o cartaz é inverter a ordem em que a obra existe.
Para quem já leu Os varões assinalados, a mudança de escala é o interesse. Lá, a guerra dura dez anos e ocupa o pampa. Aqui, tudo cabe entre sexta e domingo, numa cidade de fronteira, no ouvido de um garoto de treze anos. É o Rio Grande do Sul de Tabajara Ruas sem cavalaria: rio, trem, delegado e um tio que volta para morrer em casa.



