Os varões assinalados existem porque a Guerra dos Farrapos, a mais longa guerra civil do Brasil, cabia mal no resumo de dez linhas que a escola ainda repete. De 1835 a 1845, no Rio Grande do Sul, Bento Gonçalves da Silva e Antônio de Souza Netto comandaram uma revolução republicana contra o Império. Tabajara Ruas levou esse decênio para o romance em 1985, com a L&PM, num volume que a própria edição chama de grande romance da Guerra dos Farrapos.
Quem abre o livro não recebe um manual de batalhas. Recebe negociações que fracassam, marchas, prisões, fugas, amores e traições, ao lado de uma galeria que a orelha da L&PM nomeia sem pudor: Bento Manuel, Garibaldi, Anita Garibaldi, o capitão Teixeira Nunes, o Corpo de Lanceiros Negros. Os lugares também são concretos. Ponte da Azenha, cerco de Porto Alegre, Rio Pardo, ilha de Fanfa, Laguna, São José do Norte, Ponche Verde, Porongos. O leitor que já ouviu esses nomes em aula encontra, aqui, gente em movimento, não só data.
Por que o livro saiu em partes e voltou inteiro
A obra não ficou presa à primeira impressão. Circulou também em três partes, publicadas em separado: O país dos centauros, A República de Anita e A carga dos lanceiros. São o mesmo romance fatiado, não três histórias independentes. Tratar cada volume como livro novo só confunde quem quer comprar a narrativa completa. A edição de 2023 da L&PM devolve o conjunto num único volume, com cerca de 494 páginas, capa de Ivan Pinheiro Machado. É essa a edição à venda agora, em papel e em e-book.
Em setembro de 2025, quando a primeira publicação completava 40 anos, Ruas explicou à Gazeta do Sul o que o empurrou para o projeto nos anos 1980: leitura. Leu centenas de livros sobre o período, entre eles a História da grande revolução, de Alfredo Augusto Varela, historiador de Jaguarão. Ele também contou que percorreu o Rio Grande do Sul atrás dos acontecimentos, inclusive a região de Rio Pardo. O romance, mesmo assim, não se apresenta como tese. O autor insiste, em outras entrevistas, que gosta de História e que é ficcionista.
O que o título admite
O nome não é enfeite. Na mesma entrevista de 2025, Ruas disse que chama a obra de Os varões assinalados porque é uma história masculina, de muitos homens empenhados numa guerra. Ele cita, entre as figuras que ficaram na memória, o general Netto, Bento Gonçalves e o capitão Teixeira Nunes. Anita e outras mulheres atravessam a trama — a parte do meio se chama A República de Anita —, mas o autor não disfarça o recorte: é um livro de guerra, escrito por um homem que depois levaria os mesmos caudilhos ao cinema.
Há um parentesco direto com Netto perde sua alma. O próprio Ruas contou que o romance do general começou como epílogo imaginado para este épico, quando leitores perguntavam o que tinha acontecido com aquela gente depois. Quem lê os dois entende a sequência. Quem lê só este já tem o decênio farroupilha inteiro, do estopim ao desgaste.
Para quem o volume serve
O livro serve a quem quer a Farroupilha com nome, lugar e duração, sem depender de verbete. Serve também a quem já viu Netto perde sua alma no cinema e quer a prosa de onde a figura do general saiu, antes do hospital de Corrientes. Não substitui a historiografia de Alfredo Varela nem a de outros historiadores do século XIX. Oferece o pacto que Ruas assumiu em 1985 e reafirmou na reedição de 2023: uma narrativa longa, ancorada no chão do Rio Grande, e declaradamente de ficção.
A L&PM mantém a edição no catálogo de e-books e a Amazon vende o volume impresso de 2023. Edições antigas, de Mercado Aberto ou da Record, aparecem no mercado de usados. Para quem compra agora, o volume único recente é o caminho limpo. Os três tomos separados só interessam a quem coleciona a forma anterior da mesma obra.



