Tabajara Ruas nasceu Marcelino Tabajara Gutierrez Ruas em 11 de agosto de 1942, em Uruguaiana, na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina. O mês e o ano são os mesmos da entrada do Brasil na Segunda Guerra, coincidência que ele mesmo comentou ao falar de Monte Castelo. Quem chega ao nome hoje não encontra um memorialista de salão. Encontra o ficcionista que refez a Guerra dos Farrapos em romance longo e o diretor que pôs Antônio de Souza Netto no Festival de Cinema de Gramado.
Em casa, o nome não era exceção. O pai batizou os cinco filhos com nomes compostos, nesta ordem: Ubirajara, Tabajara, Tapejara, Potiguara e Paraguaçu. Tabajara foi o segundo. Em 2023, ele contou que o caçula, Francisco Paraguaçu, conhecido como Chico, morava em Porto Alegre. Gente próxima o chama de Taba. O restante do país o procura pelo sobrenome curto e pelos livros de fronteira.
A dúvida de quem busca o perfil costuma ser prática. De qual livro partir: do épico farroupilha, do romance sobre Netto ou da história de um sábado em Uruguaiana? E, ao lado disso, o que ele filmou de fato, o que ficou em finalização e por que um arquiteto passou uma década fora do Brasil antes de assinar romances.
De Uruguaiana à Real Academia de Copenhague
A formação começou em arquitetura na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Não terminou lá. Entre 1971 e 1981, por atuação política durante a ditadura militar, Tabajara viveu exilado no Uruguai, no Chile, na Argentina, na Dinamarca, em São Tomé e Príncipe e em Portugal. O curso de arquitetura foi concluído na Det Kongelige Danske Kunstakademi, a Real Academia Dinamarquesa de Belas Artes, em Copenhague. Cinema, ele estudou na High School de Vejle.
Em entrevista, ele situou o corte no quarto ano da UFRGS e se descreveu como simpatizante da Ação Popular, o grupo saído da juventude católica universitária que entrou na resistência ao regime. O itinerário público é este: América do Sul, Europa, África e a volta só em 1981.
Foi nesse intervalo que saiu o romance de estreia. A região submersa apareceu em 1978 em Portugal e na Dinamarca e, no mesmo ano, no Brasil, ainda com o autor fora do país. A Enciclopédia Itaú Cultural registra esse desencontro: o livro chega às livrarias brasileiras enquanto ele continua no exílio. A arquitetura, ofício que ele chegou a exercer no traço, cede lugar à trama. Em Portugal, a escrita deixa de ser projeto paralelo.
O que ele publicou, sem transformar a vida em catálogo
O romance que fixou o nome na Guerra dos Farrapos é Os varões assinalados, de 1985. A Revolução Farroupilha, de 1835 a 1845, entra ali como ficção de caudilhos, marchas, prisões e traições, com Bento Gonçalves e Antônio de Souza Netto no centro. A obra circulou também partida em três volumes — O país dos centauros, A República de Anita e A carga dos lanceiros — e voltou a sair reunida. Em 2023, a L&PM republicou o volume único. Em 2025, a primeira publicação completava 40 anos, e Ruas explicou à Gazeta do Sul que o impulso dos anos 1980 foi leitura, inclusive a História da grande revolução, de Alfredo Varela.
Netto perde sua alma nasceu como ideia de epílogo desse épico e virou livro próprio. O autor avisa, na própria apresentação, que não se trata da história de Antônio de Souza Netto, e sim de uma ficção, uma invenção, um sonho. A edição da Mercado Aberto é de 1995. Em 1996, o romance levou o Troféu Açorianos de Literatura na categoria narrativa longa. O general ferido na Guerra do Paraguai recupera a memória num hospital militar em Corrientes, na Argentina. Dali saiu o longa que ele codirigiu com Beto Souza.
Perseguição e cerco a Juvêncio Gutierrez, de 1990, é o título que a biografia pública trata como obra central. O narrador tem treze anos em Uruguaiana, nos anos 1950. O tio, contrabandista, decide voltar da Argentina, e o delegado o espera. Não é biografia do autor, embora ele tenha dito que a casa da família ficava perto do rio e da ponte e que o trem da fronteira fazia parte da infância. A L&PM, primeira editora do livro, voltou a publicá-lo em 2022.
Há outros núcleos, e cada um puxa um leitor diferente:
- O amor de Pedro por João (1982) e O fascínio (1997), romances da fase em que a Record passou a reunir a obra.
- A Guerra dos Farrapos, quadrinhos de 1985 com Flavio Colin, pela L&PM, anterior ao romance longo e diferente dele.
- A cabeça de Gumercindo Saraiva, ensaio-reportagem de 1997 com Elmar Bones, sobre o líder maragato decapitado, e o longa homônimo de 2018.
- O detetive sentimental (2008), Gumercindo (2014) e Minuano (2014), este último com Prêmio Açorianos de Literatura Juvenil.
- A série infantojuvenil Diogo e Diana, com Nei Duclós, incluindo Meu vizinho tem um rottweiler (e jura que ele é manso).
Cinema: do hospital de Corrientes ao Palácio Piratini
Tabajara trabalha com cinema desde 1978, como diretor, roteirista e produtor. O primeiro longa de ficção, Netto perde sua alma, feito com Beto Souza a partir do romance, circulou em 2001. No Festival de Gramado daquele ano, o filme recebeu quatro Kikitos, entre eles o prêmio especial e o de melhor filme pelo júri popular. A produção dos longas seguintes aparece creditada à Walper Ruas Produções.
A direção documentada inclui o documentário Brizola — Tempos de luta (2007), sobre Leonel Brizola; Netto e o domador de cavalos (2008); A cabeça de Gumercindo Saraiva (2018). Os senhores da guerra teve pré-estreia no Palácio Piratini, em Porto Alegre, em 10 de outubro de 2012: é dessa noite a fotografia em que ele discursa antes da sessão, feita por Caroline Bicocchi para a Cultura RS. As fichas de cinema divergem sobre o ano de circulação comercial do filme, entre 2012, 2014 e 2016. A pré-estreia no Piratini, essa, está datada.
Entre 2002 e 2003, foi consultor especial da TV Globo na minissérie A casa das sete mulheres. Também assinou adaptação de O tempo e o vento, de Érico Veríssimo, para minissérie da Globo e para o filme de Jayme Monjardim. O Prêmio Erico Verissimo, dado pela Câmara Municipal de Porto Alegre na 47ª Feira do Livro, em 2001, pelo conjunto da obra, fecha esse círculo sem transformar o prêmio em sinônimo da literatura de Veríssimo: é reconhecimento local, com o nome do romancista de Cruz Alta, a um autor que também reescreveu o século XIX gaúcho por conta própria.
A adaptação de Perseguição e cerco a Juvêncio Gutierrez ainda não deve ser tratada como filme estreado. Em setembro de 2024, Ruas descreveu a obra à Gazeta do Sul como filme em finalização, com estreia então prevista para 2025. Até essa confirmação pública de circuito, o romance de 1990 continua sendo a versão acabada.
Patronatos, medalhas e a frase que ele escolhe
O currículo de homenagens é longo e concreto. Está a Ordem do Mérito Judiciário do Trabalho, no grau de Comendador; a Medalha da Vitória do Ministério da Defesa; a Medalha do Mérito Farroupilha; o Troféu Guri; o título de cidadão de Porto Alegre. Em 2020, a Academia Rio-Grandense de Letras deu-lhe o Troféu Escritor do Ano. Uma enquete da Editora da UFRGS com 40 críticos e intelectuais, publicada pela Zero Hora, colocou o nome entre os dez maiores romancistas do Rio Grande do Sul.
Em 10 de agosto de 2023, a Câmara Rio-Grandense do Livro anunciou Tabajara como patrono da 69ª Feira do Livro de Porto Alegre. Ele completava 81 anos no dia seguinte. A programação da feira incluía o lançamento de Você sabe de onde eu venho, pela editora AGE, versão ampliada de um folhetim que ele havia escrito para a Zero Hora sobre a tomada de Monte Castelo pela Força Expedicionária Brasileira. O título vem do primeiro verso do poema de Guilherme de Almeida que virou o Hino do Expedicionário. Na mesma feira, a L&PM reeditava Os varões assinalados e O amor de Pedro por João.
Houve outros patronatos menores e anteriores: a Feira do Livro de Garibaldi, em 2019, com o tema literatura e cinema, e a 30ª Feira do Livro de Santa Cruz do Sul, em 2017. Em Santa Cruz ele voltou em setembro de 2024, no Festival de Cinema. A Gazeta do Sul, no ano seguinte, ainda o descrevia como uruguaianense radicado em Porto Alegre. Uma nota de 2023 da programação da Feira dizia que ele morava entre Porto Alegre e Florianópolis. As duas informações cabem no mesmo mapa: a base pública recente é a capital gaúcha, com trânsito pelo litoral catarinense.
A frase que organiza a obra não é de medalha. Em outubro de 2023, ao jornalista Geraldo Hasse, Tabajara disse: “Eu gosto muito de História, mas sou ficcionista.” É o aviso mais útil para quem abre Os varões assinalados ou Netto perde sua alma esperando manual de batalha. Os fatos estão lá — Porongos, Fanfa, o Corpo de Lanceiros Negros, Corrientes, a estação de Uruguaiana — porque ele leu e andou. O pacto, porém, é de romance. O general, o contrabandista e o menino de treze anos existem na página como invenção apoiada em chão, não como verbete.




