Se A Cama na Varanda abriu a janela, Novas Formas de Amar descreve a paisagem que entrou. Publicado pela Planeta em 2017, o livro é o título de Regina Navarro Lins com mais circulação recente na Amazon brasileira: milhares de avaliações, edição em capa comum e Kindle, e uma segunda edição já em catálogo. O subtítulo da capa não disfarça o recorte: “nada vai ser como antes — grandes transformações nos relacionamentos amorosos”.
A aposta da autora é que amar virou verbo plural. Depois da revolução sexual, do divórcio, da pílula e do movimento LGBTI, a ideia de uma alma gêmea exclusiva cede espaço ao desejo — e o desejo produz arranjos que o folhetim romântico não previa. Poliamor, relação livre, amor a três, encontros por aplicativo, sexo na terceira idade, bissexualidade visível: o livro trata isso como fato social, não como moda passageira de consultório.
O que o livro cobre
Regina escreve com a experiência de quem atende há décadas e, à época do lançamento, era consultora do Amor & Sexo e colunista da Globonews. O texto mistura casos, leitura histórica rápida e o inventário do presente: Tinder, Happn, WeChat e a substituição do bar e da festa pelo celular. A pergunta que ela devolve ao leitor é capciosa: se ficou mais fácil encontrar gente, ficou mais fácil amar?
A resposta, no livro, não é um sim comercial. Encontrar um corpo ficou rápido. Sustentar um contrato afetivo — com um, com dois, com ninguém — continua trabalho. Há páginas sobre massagem tântrica, sobre envelhecimento do desejo, sobre a dificuldade de ser livre mesmo quando a lei já não proíbe. O tom é o da psicanalista que fala em público, não o do influencer de relacionamento.
Para quem vale a compra
O livro rende mais para quem já desconfia do script “casar, ter filhos, ser fiel e pronto” e quer vocabulário para o que vive: namoro aberto, ciúme em relação não monogâmica, recasamento, aplicativo como porta de entrada. Também é o volume que terapeutas e leitores indicam quando a pergunta é contemporânea demais para a edição de 1997.
Não substitui O Livro do Amor se a fome for história longa, da pré-história à Renascença. Não substitui Sexo na Vitrine se o interesse for desejo e tabu com recorte de 2022. É o mapa do amor plural no século XXI, escrito por alguém que passou a vida ouvindo casais no Rio e traduzindo isso para a Planeta.
Limites honestos
Parte das avaliações brasileiras elogia a reflexão e cobra o ritmo: capítulos que saltam, ideias que não se aprofundam, uma crítica à monogamia que alguns leitores sentem como condenação, não como análise. Isso importa. Regina não esconde a posição libertária — ela mesma se descreveu assim à TPM — e o livro carrega essa voz. Quem busca um tratado neutro sobre todos os modelos sai incomodado; quem busca um diagnóstico de época, menos.
- 272 páginas na primeira edição Planeta (ISBN 978-8542211771).
- Existe segunda edição em catálogo; o argumento central permanece o mesmo.
- Kindle e impresso cobrem o mesmo conteúdo, sem ganho editorial em duplicar o cadastro.
Quem lê Regina só por trecho de Instagram corre o risco de achar que ela “defende poliamor”. Novas Formas de Amar é mais preciso: ela descreve o que a clínica e a rua já mostravam em 2017, e pergunta se o leitor consegue amar sem o molde que herdou. A resposta, como no consultório, fica com quem compra o livro — e com quem vai ter de viver as consequências dela.




