Em 2022, Regina Navarro Lins fez o movimento simétrico ao de Amor na Vitrine: se o amor já estava exposto, faltava o sexo. Sexo na Vitrine: sobre desejos e prazeres saiu pela BestSeller em 24 de outubro daquele ano, com 420 páginas. Não é reedição disfarçada de A Cama na Varanda. É o volume em que a psicanalista trata desejo, tabu e prazer como tema central, depois de décadas em que o sexo aparecia a reboque do casamento.
A pergunta de capa é direta: quem tem medo de falar sobre sexo? Existe jeito certo de tratar o assunto? Regina parte do estabelecimento do patriarcado e dos desdobramentos que ainda organizam vergonha, virgindade, honra e crime passional. A vitrine do título é metáfora e método: pôr à mostra o que a educação sentimental brasileira preferia deixar no escuro.
O que o livro discute
O recorte combina história das mentalidades e clínica. A autora pergunta como o sexo moldou a sociedade e como a sociedade, em troca, moldou o sexo. Há trechos sobre monogamia e relacionamentos abertos, sobre amizade erótica, sobre limites do prazer, sobre a Revolução Sexual dos anos 1960 como condição para o sexo “estar na vitrine”. Sem essa ruptura, diz o texto, continuariam de pé a inferioridade oficial da mulher, o tabu da virgindade e a desculpa da honra para violência.
O livro reivindica liberdade, desejos e prazeres — a frase é da própria apresentação editorial — mas não funciona como Kama Sutra nem como manifesto único de não monogamia. É um ensaio de intervenção: doses curtas de texto, provocação, dado histórico e volta ao presente. Quem já leu Regina reconhece o método. Quem chega agora precisa saber que o tom é de contestação, não de manual clínico de disfunção sexual.
Para quem faz sentido agora
O leitor de 2026 que discute consentimento, pornografia, desejo feminino, bissexualidade ou casamento sem sexo encontra aqui o arquivo recente da autora. Também serve a quem leu Amor na Vitrine e quer o painel complementar: lá o afeto, aqui o corpo. Terapeutas que atendem casal cansado de “conversar sobre o relacionamento” e incapaz de falar de tesão têm no volume um texto em português corrente, sem jargão de congresso.
Não substitui O Livro do Amor se a fome for a travessia histórica longa. Não substitui Novas Formas de Amar se a pergunta for “quais contratos afetivos existem hoje?”. Sexo na Vitrine é o livro do tabu que restou depois que o amor já tinha sido exposto.
O que o livro não promete
Não há garantia de vida sexual melhor, nem protocolo de casal, nem lista de práticas. Algumas avaliações cobram exatamente isso: esperavam mais informação aplicada e encontraram formulações gerais. É um limite real. O ganho está na moldura histórica e na licença para falar; a técnica de quarto, se existir, o leitor terá de buscar em outro lugar — ou no consultório, que Regina nunca abandonou.
- Editora BestSeller, 1ª edição, ISBN 978-6557122310.
- Há Kindle e capa comum; o conteúdo é o mesmo.
- Ler depois de Amor na Vitrine deixa o díptico completo; ler sozinho ainda funciona se a urgência for sexo, não contrato afetivo.
Regina Navarro Lins passou a vida pública insistindo que sexo não é apêndice do amor romântico. Sexo na Vitrine é a forma mais recente dessa insistência: um livro de resistência, como a editora o apresenta, contra séculos de repressão que ainda cobram pedágio no corpo de quem ama — ou de quem simplesmente deseja, sem pedir licença ao casamento.




