Quem conhece Regina Navarro Lins pelo Amor & Sexo pode achar que ela só fala do casal de agora. O Livro do Amor desmente isso em duas tomas. O volume 1, “Da pré-história à Renascença”, saiu pela BestSeller em 3 de julho de 2012, tem 364 páginas e é o primeiro de uma dupla: o segundo volume segue do Iluminismo à atualidade. Não são edições da mesma obra; são partes sequenciais de um mesmo projeto histórico.
A pergunta de abertura é grande de propósito: quanto a experiência amorosa ocidental se modificou ao longo dos séculos? Regina cruza moral, religião, política e economia para sustentar uma tese que ela repete na clínica: não existe “ser humano natural” do amor. O comportamento é modelado pela cultura. O que parece eterno no casamento contemporâneo — ciúme, dote simbólico, mulher cativa, homem senhor — tem data de fabricação.
O que este volume entrega
O arco vai da pré-história, quando se ignorava a participação masculina na procriação, até o momento em que a paternidade fez dos homens senhores e das mulheres criaturas submetidas no próprio lar. Na Antiguidade clássica, o livro lembra que os gregos podiam tratar o amor como aflição imposta pelos deuses e a relação entre homens como exercício de força e virtude — um choque útil para quem acha que “família tradicional” é um bloco único desde sempre.
Regina escreve para leigo. Não é manual acadêmico de história antiga, embora use o recuo histórico como arma. O objetivo declarado é devolver o leitor ao presente com outro olhar: se o amor mudou tanto até a Renascença, a angústia de hoje também tem chão, não é falha pessoal. Vários leitores descrevem o volume como denso, cheio de informação, às vezes arrastado. Isso é o preço do projeto: 364 páginas de travessia, não um ensaio de fim de semana.
Para quem é (e para quem não é)
Vale para quem quer entender de onde veio o script romântico antes de discutir Tinder. Professores, estudantes de humanas, terapeutas e leitores que já passaram por A Cama na Varanda e sentiram falta do fundo histórico encontram aqui o arquivo. Marisa Monte citou precisamente este projeto — a visão de mundo da psicanalista no Livro do Amor — ao falar da canção “Amar Alguém”.
Não é o primeiro livro se a urgência for o casal de 2026. Para ciúme, fidelidade e contrato contemporâneo, a porta continua sendo A Cama na Varanda ou Novas Formas de Amar. Também não faz sentido cadastrar o volume 2 como se fosse o mesmo item: o segundo tomo tem ISBN próprio, recorte próprio (Iluminismo à atualidade) e deve ser lido como continuação, não como “capa dura do volume 1”.
Como usar na prática
- Leia o vol. 1 se a dúvida for “por que achamos que sempre foi assim?”.
- Siga ao vol. 2 se quiser o fio até o amor romântico moderno e o presente.
- Não espere autoajuda: o ganho é perspectiva, não exercício de casal.
A edição impressa atual na Amazon brasileira usa o ISBN 978-8576843405. Há Kindle. O texto é o mesmo. O que muda é só o suporte. Para quem aceita o fôlego, este volume é o lugar em que Regina deixa de ser só a psicanalista da TV e assume o papel de historiadora amadora do sentimento — no melhor sentido da palavra: alguém que vasculha o passado para aliviar o peso falso do “sempre foi assim”.




