Existe uma maneira seca de contar a história do Brasil Império e existe a maneira de Torero. O Chalaça escolhe a segunda: em vez de observar o poder de cima, o romance desce até a antecâmara e entrega a narrativa a Francisco Gomes da Silva, o Chalaça, secretário particular de D. Pedro I. É por essa voz nada confiável que o leitor acompanha os bastidores da Independência e dos primeiros anos do Império.
O livro se apresenta como as memórias supostas do conselheiro, um personagem que circulou pelos episódios decisivos do nascimento do Estado brasileiro. A forma é a da autobiografia apócrifa: o narrador conta a própria vida com vaidade, má-fé e humor, enquanto a História passa ao fundo, como cenário de uma comédia de costumes.
Por que o romance ganhou o Prêmio Jabuti
O Chalaça recebeu o Prêmio Nascente, promovido pela Editora Abril com a USP, o Prêmio Aplub de romance e, em 1995, o Prêmio Jabuti nas categorias romance e livro do ano. O reconhecimento consolidou um tipo de ficção histórica que não abre mão do riso: a pesquisa aparece na reconstituição de época, no vocabulário e nas intrigas políticas, mas nunca em tom solene.
Para o leitor acostumado a biografias oficiais, a diferença está justamente na escolha do ponto de vista. O narrador não é um herói nacional nem um observador neutro: é um homem de bastidores, interessado em favores, dinheiro e sobrevivência. Essa distância deixa o romance mais próximo do romance picaresco do que do livro de história.
Edição comemorativa de 30 anos
Em 2025, a Padaria de Livros publicou uma edição comemorativa de 30 anos, com versão revista e editada da obra. A nova edição recoloca o romance em circulação em um momento de interesse renovado por ficção histórica brasileira e por narrativas que questionam as versões consagradas do passado.
Para quem é este livro
O Chalaça faz sentido para quem gosta de romance histórico com humor, de narrativas em primeira pessoa com narrador duvidoso e de tramas que mostram a política como ela funciona nos corredores, não apenas nos discursos. Também é uma porta de entrada para a obra de Torero: quem começa por aqui entende o método que ele levaria depois para o futebol, para a literatura infantil e para a sátira política.
Se a intenção é conhecer o livro que projetou o autor e lhe rendeu o Jabuti, esta edição é o caminho mais direto. Quem preferir começar por uma obra mais recente pode seguir para a página do autor e conhecer outros projetos.





