O deus das avencas reúne três novelas e três escalas de tempo, com o mesmo desconforto: o que acontece com a vida íntima quando o país, o clima e a técnica saem dos eixos. Publicado em 2021 pela Companhia das Letras, é o livro em que Daniel Galera deixa o realismo contemporâneo conversar com ficção científica e com o pós-apocalipse, sem abandonar o interesse por casal, filho, mãe e comunidade.
O volume reúne textos escritos no primeiro ano da pandemia, embora imaginados antes dela. Não é um “livro da covid”. É um livro sobre expectativa, perda e sobre tentar reconstruir a vida a partir de erros próprios, num mundo que acelera demais ou já quebrou. Para quem conhece Galera só por Garopaba, esta é a virada de chave.
As três novelas
A novela que dá título ao livro acompanha um casal fechado em casa, à espera do primeiro filho, nas vésperas das eleições de 2018. A incerteza doméstica e a incerteza nacional se alimentam. O espaço é pequeno; o nervoso, não. Galera usa a espera do parto como pressão, não como símbolo vazio. O país entra pela porta da sala.
Em “Tóquio”, o salto é outro. Um homem solitário vive numa São Paulo de meados do século 21, marcada por desigualdade e desastre ambiental. Precisa decidir o que fazer com uma cópia digital disfuncional da mente da mãe, bilionária que apostou nas tecnologias que aceleraram as crises. Aqui a ficção científica não é adereço: é o dispositivo que permite tratar luto, classe e responsabilidade técnica na mesma frase.
“Bugônia” vai mais longe. Uma menina descobre um papel transformador numa comunidade pós-apocalíptica em simbiose com a natureza. A chegada de um desconhecido altera o equilíbrio de um grupo já pressionado por um planeta devastado. A novela investiga o que resta de humano quando a distinção entre vida humana e não humana deixa de ser óbvia.
O próprio autor descreveu o conjunto como um recuo ao passado recente e dois saltos para o futuro, numa tentativa de investigar ficcionalmente ideologias e práticas que ameaçam, e talvez aproximem, vidas humanas e não humanas. A Companhia das Letras fala de um livro especulativo, por vezes sombrio, e extremamente humano. As duas descrições combinam: o estranho só funciona porque o afeto continua no centro.
O lugar deste livro na carreira
Depois de Barba ensopada de sangue e Meia-noite e vinte, Galera podia ter repetido o realismo de geração. Não repetiu. O deus das avencas amplia o repertório sem largar as obsessões antigas: família, reconhecimento, o corpo no tempo, a dificuldade de imaginar o futuro. A diferença é a escala. O apartamento de 2018, a São Paulo arruinada e a comunidade do fim do mundo são três laboratórios da mesma pergunta.
Trechos e conversas em torno do livro circularam na Paris Review, com o excerto “The God of Ferns” traduzido por Julia Sanches, e em entrevistas brasileiras sobre imaginação e ficção científica. Isso importa para o leitor que chega agora: não é um desvio obscuro. É a obra recente mais comentada do autor, e a que melhor mostra o que ele quis fazer depois do auge de Barba.
O volume tem 248 páginas na edição da Companhia das Letras, capa de Alceu Chiesorin Nunes e lançamento em junho de 2021. É mais curto que o romance de Garopaba e mais fragmentado por desenho. Cada novela se lê inteira; as três juntas revelam o método.
Para quem este livro serve
Serve a quem já leu Galera e quer ver o autor sair do litoral e da geração 1990. Serve a quem lê ficção contemporânea brasileira e tolera especulação sem exigir space opera. Serve pouco a quem busca um único enredo contínuo de 400 páginas. A forma é a da reunião: três movimentos, um argumento.
- Leitor de Galera que quer a fase posterior a Barba ensopada de sangue.
- Quem se interessa por ficção brasileira com clima, tecnologia e colapso.
- Quem prefere novela à arquitetura longa do romance.
- Quem leu o trecho na Paris Review e quer o original em português.
Leitura e edição
A edição em português é da Companhia das Letras, ISBN 978-65-592-1051-0. Na Amazon, o item correto é o volume de Daniel Galera com esse título, não uma tradução estrangeira. Não há sequência obrigatória, mas o livro conversa melhor se o leitor já conhece o realismo anterior: percebe o que mudou e o que ficou.
Quem quiser o Galera do mistério familiar continua em Barba ensopada de sangue. Quem quiser o retrato da internet porto-alegrense, em Meia-noite e vinte. O deus das avencas é o volume da imaginação deslocada: o mesmo ouvido para intimidade, agora sob eleição, mente copiada e comunidade depois do desastre.




