Contexto e proposta de O grande mentecapto
O grande mentecapto é o segundo romance de Fernando Sabino e o livro que lhe valeu o Prêmio Jabuti em 1980. Publicado em 1979 pela Record, narra as aventuras e desventuras de José Geraldo Peres da Nóbrega e Silva, o Geraldo Viramundo, espécie de Dom Quixote atrasado que percorre Minas Gerais com boa-fé, desatino e uma vocação para o tropeço.
A história começa em Rio Acima. Menino, Viramundo faz parar o trem que não costumava parar na cidade e vira herói entre os amigos. Pingolinha tenta repetir o feito e morre. O episódio marca o protagonista para sempre. Depois vêm o seminário em Mariana, a expulsão, o hospício, o Exército, a paixão, a prisão, o touro, o fantasma e uma longa lista de cidades mineiras — Ouro Preto, Barbacena, Juiz de Fora, Tiradentes, Uberaba, Curvelo, Sabará, Araxá. Em Belo Horizonte, de novo internado, participa de uma rebelião. O tom mistura riso, sátira e luto.
Sabino começou o livro mais de trinta anos antes da publicação. Retomou os originais em 1979 e concluiu a narrativa de um fôlego. Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade e Tristão de Athayde reagiram com elogio. A comparação com Cervantes não é enfeite de quarta capa: Viramundo atravessa o mundo como o bem-intencionado que não se encaixa no seminário, no quartel, na política nem no hospício, e ainda assim insiste em consertar o que vê torto.
Em 1989 o romance foi adaptado para o cinema por Oswaldo Caldeira e também ganhou o palco. No centenário do autor, a Record lançou versão em quadrinhos com Caco Galhardo, prova de que a história de Viramundo continua a pedir outras linguagens. O romance original, porém, permanece o texto de referência: picaresco, mineiro, cru na tragédia e leve no recorte cômico.
Leitor de crônica que espera só o Sabino do constrangimento urbano pode se surpreender. Aqui o espaço é o interior de Minas, a língua se abre para o relato de estrada e o humor convive com a morte de criança, o hospício e a peregrinação sem redenção fácil. O narrador, no fecho, admite pesar por largar o personagem — um dos trechos mais citados do livro, e um dos mais honestos sobre o ofício de inventar gente.
Para quem quer um Fernando Sabino diferente do romance intimista de 1956, O grande mentecapto é a obra. Não é manual de Minas nem retrato folclórico: é ficção de personagem que não cabe no mundo, escrita por um autor que conhecia o Estado o suficiente para não transformá-lo em cartão-postal.
A edição da Record em catálogo traz o subtítulo que já é programa: relatos das aventuras e desventuras de Viramundo e de suas inenarráveis peregrinações. Não é preciso conhecer Minas palmo a palmo para acompanhar o deslocamento; as cidades funcionam como estações de um caráter, não como guia turístico. Quem chegou ao livro pelo Jabuti ou pelo filme encontra, no papel, mais tempo de voz do narrador e mais amargura no fecho. A graphic novel de Caco Galhardo é outra porta, não um substituto: o romance de 1979 continua sendo o texto em que Sabino junta o riso e o patético com mais fôlego.




