Contexto e proposta de O homem nu
O homem nu é a coletânea de crônicas e contos que revelou, em livro, o Fernando Sabino da imprensa diária. Publicada em 1960 pela Editora do Autor — casa que ele fundou com Rubem Braga e Walter Acosta —, reúne cerca de quarenta textos. O conto que dá nome ao volume ficou famoso: depois de uma noite fora, o protagonista se vê trancado no corredor, sem roupa, e atravessa a cidade tentando chegar em casa sem se entregar ao ridículo absoluto.
O restante do livro não vive só dessa anedota. Há o delegado às voltas com um crime em que faltam assassino e assassinado, o homem reduzido à metade de si mesmo, o que apanhava da mulher, a reunião de pais em que só havia mães. O humor nasce do constrangimento, da burocracia, do corpo e da cidade. É o mesmo olhar que Sabino treinou em Nova York e no Rio: o detalhe miúdo que, bem cortado, vira fábula urbana.
A crônica-título foi adaptada para o cinema mais de uma vez. A primeira versão, dirigida por Roberto Santos, contou com argumento, roteiro e diálogos do próprio autor. Décadas depois, Hugo Carvana voltou à história. O trânsito entre jornal, livro e tela explica parte da popularidade: muita gente conhece “o homem nu” antes de conhecer o restante da obra.
Para o leitor de hoje, o volume funciona como mapa do cronista. Quem quiser o romancista de fôlego vai a O encontro marcado ou a O grande mentecapto. Quem quiser o menino de Belo Horizonte vai a O menino no espelho. Quem quiser o Sabino do jornal — frase rápida, ironia, cena de rua — começa aqui. A Record mantém o título em catálogo, na mesma linha gráfica dos outros clássicos do autor.
Não se trata de livro de piadas. O constrangimento é cômico, mas o fundo é a fragilidade de quem precisa atravessar o dia vestido de pessoa honrada. Sabino entendeu cedo que o ridículo público é matéria nobre da crônica brasileira, no rastro de Rubem Braga e na companhia de uma geração que fez do jornal literatura sem pedir licença à universidade. O homem nu permanece o cartão de visita desse ofício.
A edição atual da Record reúne o volume na linha Nova Ortografia, ao lado dos romances mais conhecidos. O livro nasceu numa editora fundada pelo próprio autor, num momento em que Sabino já tinha largado o cartório e apostava na literatura como ofício. Ler O homem nu hoje é ver o cronista no auge da circulação jornalística, antes do Jabuti e antes do menino do espelho. Para quem quer um volume único, curto o bastante para caber em poucos dias de leitura e variado o bastante para mostrar o método, esta coletânea continua sendo a melhor amostra do humor urbano de Fernando Sabino.




