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Fernando Sabino

Fernando Tavares Sabino

Nascimento: 1923 Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil
Escritor, jornalista e editor mineiro (1923–2004), autor de O encontro marcado, O grande mentecapto e das crônicas reunidas em O homem nu.

Fernando Sabino nasceu no Dia das Crianças, em Belo Horizonte, e pediu um epitáfio que parece recado de menino teimoso: nasceu homem e morreu menino. A frase está no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, e ajuda a entender por que o escritor continua sendo procurado — não como monumento frio, mas como voz próxima, irônica, capaz de transformar o cotidiano em literatura.

Quem chega até ele costuma querer o romancista de O encontro marcado, o cronista de O homem nu e o autor que levou Geraldo Viramundo pelas cidades de Minas em O grande mentecapto. Este perfil reúne a trajetória pública, o ofício de jornalista e editor e as obras que ainda abrem caminho para a leitura, sem reduzir a pessoa a uma prateleira.

Quem foi Fernando Sabino

Fernando Tavares Sabino (Belo Horizonte, 12 de outubro de 1923 — Rio de Janeiro, 11 de outubro de 2004) foi escritor, jornalista e editor brasileiro. Publicou cerca de cinquenta livros entre romances, novelas, contos, crônicas, correspondência e volumes de memória. Recebeu o Prêmio Jabuti por O grande mentecapto e, em 1999, o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto da obra.

Filho de Domingos Sabino e Odete Tavares de Lacerda, ambos de Leopoldina, Minas Gerais, cresceu numa família de origem italiana paterna e de raízes mineiras maternas. Aprendeu a ler com a mãe, entrou no Grupo Escolar Afonso Pena e, ainda menino, encontrou ali o amigo Hélio Pellegrino. Aos doze anos publicou um conto policial na revista Argus, da polícia de Minas. Aos dezoito, lançou o primeiro livro, Os grilos não cantam mais (1941), e recebeu carta elogiosa de Mário de Andrade — o começo de uma correspondência depois reunida em volume.

Havia outro Fernando, menos citado nos resumos escolares: o nadador. Pelo Minas Tênis Clube, especializou-se no nado de costas e foi campeão sul-americano da modalidade em 1939. A água voltaria como metáfora e como cena em vários textos. No mesmo período, empatou com Hélio Pellegrino no segundo lugar da Maratona Nacional de Português e Gramática Histórica. Literatura e disciplina de treino cresceram juntas.

  • Estreia em livro aos 18 anos, com Os grilos não cantam mais.
  • Romance de geração: O encontro marcado (1956).
  • Crônica urbana de larga circulação: O homem nu (1960) e colaborações no Jornal do Brasil e em O Globo.
  • Romance picaresco mineiro premiado: O grande mentecapto (1979), Jabuti em 1980.
  • Infância revisitada: O menino no espelho (1982), presença frequente em escolas.

Belo Horizonte, os quatro mineiros e a ida ao Rio

No começo dos anos 1940, Sabino ingressou na Faculdade de Direito em Minas e no jornalismo da Folha de Minas, por indicação de Murilo Rubião. Com Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos formou o grupo que João Etienne Filho apelidou de vintanistas — quatro amigos na casa dos vinte, entre boemia, literatura e a Belo Horizonte que ainda cabia numa conversa de madrugada. Mais tarde o quarteto ficou conhecido como os quatro mineiros. Essa convivência alimentou personagens e episódios de O encontro marcado.

Mudou-se para o Rio em 1944. Terminou o curso na Faculdade Nacional de Direito em 1946 e, no mesmo ano, embarcou com Vinicius de Moraes para os Estados Unidos. Em Nova York, trabalhou no Escritório Comercial do Brasil e no consulado, enviou crônicas para o Diário Carioca e O Jornal e reuniu o material em A cidade vazia (1950). Também nessa época conheceu Clarice Lispector, de quem se tornou amigo e correspondente; as cartas entre os dois saíram depois em Cartas perto do coração.

De volta ao Brasil, acumulou o cargo de escrivão com a escrita para jornais e revistas. Em 1956 saiu O encontro marcado, pela Civilização Brasileira. No ano seguinte pediu exoneração do cartório e decidiu viver de literatura. A aposta não era retórica: passou a produzir crônica com regularidade para o Jornal do Brasil e para a revista Senhor.

Jornalismo, editoras e o ofício de viver de literatura

Sabino não se limitou a assinar livros. Em 1960 fundou, com Rubem Braga e Walter Acosta, a Editora do Autor, onde publicou O homem nu. A casa editorial também abriu espaço para nomes da literatura brasileira e latino-americana. Em 1964 foi adido cultural na embaixada brasileira em Londres, correspondente do Jornal do Brasil e colaborador da BBC e de revistas como Manchete e Claudia. Saiu da Editora do Autor e fundou, ainda com Braga, a Editora Sabiá, depois vendida à José Olympio.

Nos anos 1970 aproximou-se do cinema. Com David Neves criou a Bem-te-vi Filmes e produziu curtas sobre escritores brasileiros. A crônica, no entanto, nunca saiu de cena: ficou quinze anos no Jornal do Brasil e, a partir de 1977, manteve a coluna “Dito e Feito” em O Globo, reproduzida em dezenas de jornais. O gênero que no Brasil mistura jornal e literatura encontrou nele um praticante de oficina diária — humor, detalhe miúdo, golpe de ironia, sem discurso de palanque.

Em 1979 concluiu O grande mentecapto, romance começado mais de três décadas antes. O Jabuti veio em 1980. Em 1982 publicou O menino no espelho. Seguiram-se novelas, crônicas, a autobiografia literária O tabuleiro de damas e volumes de cartas com Mário de Andrade e com os três amigos mineiros. Em 1996 a Nova Aguilar reuniu a obra em três volumes. A Record, editora de boa parte do catálogo a partir dos anos 1970, segue reimprimindo os títulos centrais.

Como ler Fernando Sabino hoje

Há pelo menos três portas, e elas não se substituem. A primeira é o romance de formação: O encontro marcado acompanha Eduardo Marciano da infância mineira à vida adulta, entre vocação literária, boemia e impasse existencial. A segunda é a crônica: O homem nu mostra o autor no registro que o tornou popular na imprensa, com o conto-título depois levado ao cinema. A terceira é o picaresco de O grande mentecapto, em que Viramundo atravessa Minas como um quixote atrasado, cômico e trágico ao mesmo tempo. O menino no espelho funciona como quarta entrada, sobretudo para quem chega pela escola ou pela memória de infância em Belo Horizonte.

A prosa é coloquial sem ser frouxa. Sabino usa corte, elipse, diálogo rápido e um humor que não pede licença. Críticos o situam na terceira fase do modernismo brasileiro, ou no pós-modernismo da chamada Geração de 45, mas o leitor comum o encontra por outro caminho: a frase que cabe no bolso, a cena de rua, o constrangimento transformado em fábula urbana. Na literatura brasileira do século XX, poucos nomes equilibraram tanto o romance de fôlego e a crônica de jornal sem perder o tom.

Morte, instituto e memória pública

Fernando Sabino morreu em 11 de outubro de 2004, em casa, em Ipanema, vítima de câncer no fígado, na véspera de completar 81 anos. Foi sepultado no Cemitério São João Batista. Em 2005 a família criou o Instituto Fernando Sabino, dedicado a incentivar a leitura a partir da obra. Em 2018 Belo Horizonte inaugurou o Espaço Cultural Encontro Marcado. Na Praça da Liberdade, a escultura de Léo Santana reúne os quatro mineiros num banco — imagem que virou ponto de visita e de foto.

O centenário, em 2023, reacendeu edições, mostras e releituras. O que permanece, porém, não depende de data redonda: é a capacidade de fazer o leitor rir de um aperto e, no parágrafo seguinte, reconhecer o vazio que o aperto escondia. Sabino escreveu como quem conversa, mas deixou livros que continuam a pedir reler.

Perguntas frequentes sobre Fernando Sabino

Fernando Sabino nasceu e morreu onde?

Nasceu em Belo Horizonte, em 12 de outubro de 1923, e morreu no Rio de Janeiro, em 11 de outubro de 2004. Viveu em Minas até os vinte anos, fixou-se no Rio a partir de 1944 e passou períodos em Nova York e em Londres por trabalho diplomático e jornalístico.

Qual livro de Fernando Sabino ler primeiro?

Depende do gosto. O encontro marcado é o romance mais citado como porta de entrada. O homem nu serve a quem prefere crônicas curtas. O menino no espelho costuma ser a escolha escolar. O grande mentecapto pede fôlego e apetite para aventura picaresca.

Fernando Sabino foi só romancista?

Não. Foi cronista de jornal, editor — Editora do Autor e Editora Sabiá, com Rubem Braga —, cineasta em curtas da Bem-te-vi Filmes e autor de correspondência publicada com Clarice Lispector, Mário de Andrade e os amigos mineiros.

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Projetos de Fernando Sabino

O encontro marcado
O encontro marcado
Romance de 1956 em que Fernando Sabino acompanha Eduardo Marciano da infância mineira à vida adulta, entre vocação literária e impasse existencial.
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O grande mentecapto
O grande mentecapto
Romance de 1979, vencedor do Jabuti, sobre Geraldo Viramundo e suas peregrinações picarescas pelas cidades de Minas Gerais.
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O menino no espelho
O menino no espelho
Romance infantojuvenil de 1982 em que Fernando Sabino revisita a infância em Belo Horizonte com fantasia, humor e memória.
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O homem nu
O homem nu
Coletânea de 1960 com crônicas e contos de Fernando Sabino, incluindo o texto-título depois adaptado para o cinema.
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