Se O amor acaba é o Paulo íntimo, O mais estranho dos países é o Paulo que sai à rua e entra na casa dos outros. Publicado pela Companhia das Letras em 2013, o volume de 352 páginas se divide em duas metades: crônicas sobre o Brasil — sobretudo os anos 1960 — e uma galeria de perfis. O título pega o país pelo avesso: estranho, sim, e ainda assim o único que ele sabia descrever de perto.
Na primeira parte, o cronista escreve o Brasil do cinema novo, da bossa nova, do futebol e da arquitetura que então encantavam o mundo. A prosa é arrebatada e, ao mesmo tempo, concisa. Há páginas sobre Minas, Rio, São Paulo, Bahia, Pernambuco e Amazônia em que a expressão “prosa poética” deixa de ser elogio vazio e vira descrição de ritmo. Paulo olha o país como quem olha um amigo velho: com orgulho, ironia e detalhe.
Crônicas do país e da imprensa
Dois textos desta metade têm valor de documento. Um retrata o processo de criação de Murilo Rubião, que levou 26 anos para finalizar um conto. Outro lembra a revista Comício, cuja redação reuniu Rubem Braga, Vinicius de Moraes, Millôr Fernandes, Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Clarice Lispector, Antônio Maria e Sérgio Porto. Não é nostalgia de grupo: é o mapa de uma imprensa em que a literatura ainda cabia no expediente.
O Brasil que Paulo descreve não é folclore. É cidade, copo, redação e deslocamento. Mineiro no Rio, ele escreve o país de quem saiu de Belo Horizonte e nunca deixou de medir o restante do mapa a partir dali. A crônica de viagem, neste livro, não é postal: é comparação.
A arte do perfil
A segunda metade entrega o retratista. Paulo Mendes Campos tinha personagens e anedotas à disposição, e os melhores perfis são os dos amigos — ternos e precisos no detalhe. De Ari Barroso, anota: “não foi tão assíduo quanto Antônio Maria no Ministério da Noite, mas não chegou a ser um funcionário relapso”. A frase é o método: humor, convívio e um adjetivo que fecha o retrato.
Quem lê esta parte entende por que o apelido “sabiá da crônica”, dado a Rubem Braga, nasceu de uma crônica de Paulo. O perfil, nele, não é ficha biográfica. É conversa de bar passada a limpo, com ouvido de poeta e disciplina de jornalista que cumpria encomenda na Remington.
- Edição da Companhia das Letras, 22 de março de 2013, 352 páginas.
- Duas partes: crônicas do Brasil e perfis.
- Inclui textos sobre Murilo Rubião e a revista Comício.
- Complementa o recorte lírico de O amor acaba.
Para quem este livro é o caminho certo
Para quem já gostou do tom de O amor acaba e quer o cronista olhando para fora. Para quem lê história cultural dos anos 1950 e 1960 e precisa de testemunho, não de manual. Para quem busca retratos de Vinicius, Braga, Sabino e da noite carioca sem folhetim. Não substitui uma biografia dos quatro mineiros; oferece o olhar de um deles sobre o país e sobre a turma.
A leitura pode começar pela segunda metade se o interesse for gente, não paisagem. Ou pela primeira, se o que puxa é o Brasil. Em qualquer ordem, o livro mostra um autor sempre à caça da frase definitiva — a mesma caça da crônica-título do outro volume, agora voltada para o mapa e para os amigos.
Perguntas frequentes
Este livro repete O amor acaba?
Não. São recortes diferentes da obra. O amor acaba privilegia o tom lírico e existencial; O mais estranho dos países privilegia o país, as cidades e os perfis.
Os perfis são biografias?
Não. São crônicas de retrato, escritas para jornal e revista, com anedota, afeto e observação. O ganho está no detalhe, não no currículo.




