Em agosto de 1945, Paulo Mendes Campos pegou o noturno de Belo Horizonte rumo ao Rio só para conhecer Pablo Neruda. O chileno recitou trechos ainda inéditos de Alturas de Macchu Picchu, passou por Copacabana e foi embora. O mineiro de 23 anos ficou.
Ficou para virar cronista da revista Manchete, poeta de O domingo azul do mar e autor de uma das frases mais relidas da prosa brasileira: o amor acaba. Entre a Remington e o expediente de funcionário público, ele escreveu o cotidiano carioca com ouvido de poeta. Hoje a Companhia das Letras reúne essa obra, e o Instituto Moreira Salles guarda o acervo.
Quem foi Paulo Mendes Campos
Paulo Mendes Campos nasceu em 28 de fevereiro de 1922, em Belo Horizonte, em pleno Carnaval, filho do médico e escritor Mário Mendes Campos e de Maria José Lima Campos. Era o terceiro de nove irmãos. A mãe reunia a prole para ler Edgar Allan Poe e declamar Baudelaire — em casa se falava mais de uma língua, e o gosto pela poesia veio dali, não do consultório do pai.
Estudou no Colégio Arnaldo, internou-se no Dom Bosco, em Cachoeira do Campo, e concluiu o ginásio no Santo Antônio, em São João del-Rei. Começou Odontologia, Direito, Veterinária e até o curso de aviador na Escola Preparatória de Cadetes, em Porto Alegre. Não terminou nenhum. Gostava de brincar que o único diploma era o de datilógrafo.
Em 1939, ainda em Belo Horizonte, estreou na imprensa com o artigo “Raul de Leoni, poeta enganador”, no jornal O Diário. Dirigiu o suplemento literário da Folha de Minas, passou pela redação de O Estado de Minas e trabalhou na construtora de um tio. A vocação “mais séria e mais alta”, como Otto Lara Resende depois observaria, já estava na prosa e no verso.
A ida ao Rio e a vida de jornalista
A mudança de 1945 não foi um plano de carreira. Fernando Sabino, que já morava no Rio, avisou da visita de Neruda. Paulo se hospedou na casa de Vinicius de Moraes, no Leblon, conheceu o poeta chileno e decidiu encerrar a vida em “Belô”. Mentiu para o pai, dizendo que havia arranjado um bom emprego, e ficou.
No Rio, Carlos Drummond de Andrade o indicou ao Instituto Nacional do Livro. Cyro dos Anjos ofereceu um cargo de fiscal de obras no Ipase: “Não fiscalizei obra alguma”, escreveria depois. Colaborou em O Jornal, no Correio da Manhã — onde foi redator por dois anos e meio — e no Diário Carioca, com a coluna diária “Primeiro Plano”. A partir de 1952, e por 23 anos, foi um dos cronistas efetivos da Manchete, ao lado de Rubem Braga, Fernando Sabino e Henrique Pongetti.
Em 25 de outubro de 1951, no mesmo dia, casou-se com a inglesa Joan Abercrombie e lançou o primeiro livro de poemas, A palavra escrita, em tiragem de 126 exemplares. O casal teve dois filhos, Daniel e Gabriela. Viveu em Copacabana, Ipanema e, no fim da vida, no Leblon. Aposentou-se em 1981 como técnico em comunicação social da Empresa Brasileira de Notícias. Também dirigiu o Departamento de Obras Raras da Biblioteca Nacional.
Os quatro mineiros
Em 1937, em São João del-Rei, Paulo conheceu Otto Lara Resende no time de basquete. Pouco depois, em Belo Horizonte, João Etienne Filho o apresentou a Fernando Sabino e a Hélio Pellegrino. Otto batizou o quarteto de “os quatro cavaleiros de um íntimo apocalipse”. Mário de Andrade os chamou de “vintanistas”: todos nasceram na década de 1920.
A amizade durou quatro décadas e atravessou redações, cartas, bares e um disco. Em 1981, para comemorar os 40 anos, os quatro gravaram o LP duplo Os 4 mineiros, pela Som Livre, com leitura de textos e depoimentos. Hélio morreu em 1988; Paulo, em 1991; Otto, em 1992; Fernando Sabino, em 2004.
No mesmo circuito carioca circulavam Rubem Braga — a quem Paulo apelidou de “o sabiá da crônica” —, Vinicius de Moraes, Sérgio Porto e Clarice Lispector. A crônica brasileira daqueles anos não era um gênero menor: era o lugar em que a literatura encontrava o jornal todos os dias.
Cronista, poeta e tradutor
Paulo gostava de diminuir o próprio ofício. “Crônica são duas laudas de papel em branco”, dizia, “é a azeitona do pastel cultural.” A frase engana. Ele canalizou para a crônica matéria que outros reservariam ao poema: o crepúsculo, o bar que fecha numa quarta-feira, o cego que dormia na garagem de um prédio da Nascimento Silva, em Ipanema.
O primeiro livro de crônicas, O cego de Ipanema, saiu em 1960. Vieram Homenzinho na ventania (1962), O colunista do morro (1965), Hora do recreio (1967), O anjo bêbado (1969) e Os bares morrem numa quarta-feira (1980). Vinte e cinco crônicas dele entram nos cinco primeiros volumes da série Para gostar de ler, da Ática, ao lado de Sabino, Braga e Drummond — gerações de estudantes leram Paulo Mendes Campos na escola sem necessariamente saber o nome do autor daquela página.
Na poesia, O domingo azul do mar (1958) ganhou o prêmio Alphonsus de Guimaraens do Instituto Nacional do Livro, dividido com Homero Homem. Como tradutor, passou ao português Júlio Verne, Oscar Wilde, Jane Austen, Shakespeare, Flaubert, Emily Dickinson, Jorge Luis Borges e, de Neruda, Canto geral e os dois volumes de Residência na Terra. “Traduzir é o meu modo de descansar carregando pedras.”
Também escreveu para cinema e televisão: o roteiro de Roberto Carlos em ritmo de aventura (1968) e o episódio Poema barroco, sobre Aleijadinho, para o Caso Especial da TV Globo, em 1977. Torcedor do Botafogo, fundou o time amador Trinta por Trinta — 30 amigos acima dos 30 anos.
- Nasceu em Belo Horizonte em 28 de fevereiro de 1922 e morreu no Rio de Janeiro em 1º de julho de 1991.
- Foi cronista da Manchete por 23 anos e manteve coluna no Diário Carioca.
- Estreou em livro com A palavra escrita (1951) e consolidou a poesia em O domingo azul do mar (1958).
- A crônica O amor acaba, publicada na Manchete em 16 de maio de 1964, deu título à seleção póstuma organizada por Flávio Pinheiro.
- O acervo — cartas, cadernos, fotografias e recortes — está no Instituto Moreira Salles desde 2011.
Obras para começar a ler
Quem chega pelo texto mais famoso encontra O amor acaba, seleção de crônicas líricas e existenciais publicada pela Companhia das Letras. Quem quer o poeta reunido abre Poesia, volume de 2023 que recolhe livros esgotados, poemas do acervo do IMS e uma amostra do tradutor. Para o Brasil das cidades e os retratos de amigos, O mais estranho dos países junta crônicas e perfis. A porta mais recente é Minhas janelas, seleta de 2025 organizada por Flávio Pinheiro.
O que permanece
Paulo Mendes Campos morreu em 1º de julho de 1991, no apartamento da Rua Carlos Góis, no Leblon, aos 69 anos. Foi enterrado no Cemitério do Bonfim, em Belo Horizonte. A Civilização Brasileira reorganizou as crônicas entre 1999 e 2001; a Companhia das Letras retomou a obra a partir de 2013. No Portal da Crônica Brasileira, parceria do IMS com a Fundação Casa de Rui Barbosa, os textos continuam legíveis fora do volume encadernado.
Ele nunca escreveu romance. “Sou um homem de encomendas. Se me encomendarem um romance, terão um romance.” Ninguém encomendou. O que ficou foi outra coisa: uma prosa que cabe no jornal da tarde e ainda assim se lê como se o tempo tivesse parado numa esquina de Ipanema.
Perguntas frequentes sobre Paulo Mendes Campos
Quem foi Paulo Mendes Campos?
Escritor, poeta, cronista, jornalista e tradutor brasileiro, nascido em Belo Horizonte em 1922 e morto no Rio de Janeiro em 1991. Integra o grupo dos quatro mineiros, com Fernando Sabino, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino.
Qual é o livro mais conhecido de Paulo Mendes Campos?
A seleção O amor acaba, organizada por Flávio Pinheiro e publicada pela Companhia das Letras, reúne crônicas líricas e existenciais e traz o texto que dá título ao volume, saído originalmente na revista Manchete em 1964.
Paulo Mendes Campos foi só cronista?
Não. Estreou como poeta, ganhou prêmio nacional de poesia, traduziu clássicos e escreveu para jornal, revista, cinema e televisão. A crônica é o gênero pelo qual ficou mais conhecido, mas a poesia atravessa a prosa.





