Paêbirú é o disco pelo qual Lula Côrtes segue sendo procurado, e também o disco que quase não existiu nas lojas. Gravado com Zé Ramalho e lançado em torno de 1975 pela Rozenblit, o duplo se chama ainda Caminho da Montanha do Sol. O conceito saiu de uma ida, em 1974, de Lula, Kátia Mesel e Zé Ramalho ao sítio arqueológico da Pedra do Ingá, na Paraíba. Cada lado do vinil corresponde a um elemento: Terra, Ar, Fogo e Água.
A página do álbum no site da obra descreve um libreto de oito páginas na edição original, usado quase como mapa da psicodelia nordestina. O texto fala em cantos, raga, acid folk, ritmos africanos e misticismo, no clima de um coletivo e não de uma dupla fechada em estúdio. Na gravação entram Geraldo Azevedo, Alceu Valença e Don Tronxo. Temas associados aos índios cariri, estudos de violão, maracatu, repente alagoano e candomblé respondem aos quatro elementos. Não é um alinhamento de singles com um hit no meio.
A enchente e as contas que não fecham
A cheia do Capibaribe atingiu o estoque da Rozenblit no ano previsto para o lançamento. A biografia oficial fala em 2 mil LPs inutilizados, incluindo a tiragem de Paêbirú, e registra duas versões: matrizes salvas e reenviadas em 1976 a uma fábrica paulista, ou cerca de 300 cópias guardadas por Kátia Mesel como único lote que chegou ao público. Outras narrativas, inclusive a ficha da reedição, falam em 1.300 unidades e cerca de mil perdidas. Tratar um desses números como único é empurrar a discografia para o folclore. O efeito documentado é o mesmo: sobrou pouco, e o vinil ficou raro.
Os três shows de lançamento aconteceram entre 16 e 18 de julho de 1976, no Nosso Teatro, em Recife. Depois disso, Zé Ramalho seguiu para a carreira nacional. Lula continuou no circuito que a própria página do disco chama de udigrudi. Em 2008 o selo inglês Mr. Bongo reeditou o álbum. Em 2019 a Polysom fez prensagem brasileira em vinil, a partir do acervo ligado à Rozenblit. A página da Polysom na Amazon, quando o item está cadastrado, é a reedição de 180 gramas, não a prensa de 1975.
Os quatro lados
A ficha do site da obra lista as faixas assim:
- Terra: Trilha de Sumé, Culto à Terra, Bailado das Muscárias.
- Ar: Harpa dos Ares, Não Existe Molhado Igual ao Pranto, Omm.
- Fogo: Raga dos Raios, Nas Paredes da Pedra Encantada, os Segredos Talhados por Sumé, Maracas de Fogo.
- Água: Louvação a Iemanjá, Regato da Montanha, Beira Mar, Pedra Templo Animal, Sumé.
“Harpa dos Ares” e a suíte de abertura da Terra são as portas mais citadas por quem escuta o disco em plataforma, sem precisar do vinil. “Nas Paredes da Pedra Encantada” deu nome, em 2010, ao documentário de Cristiano Bastos e Leonardo Bonfim sobre a criação do álbum. O título não é enfeite: a pedra da Paraíba está dentro da faixa e dentro do filme.
Quem compra e quem só quer ouvir
Há dois públicos, e eles não pedem a mesma coisa. Um quer entender a viagem, os quatro elementos e a diferença entre este duplo e o Satwa de 1973. Outro quer o objeto: a prensa antiga, quando aparece em sebo, ou a reedição da Polysom. O preço do vinil antigo oscila e não cabe como número fixo. O que cabe é a distinção. Paêbirú explica Lula melhor do que qualquer cargo posterior, inclusive o de assessor cultural em Jaboatão dos Guararapes no fim da vida. O disco é anterior à fama de Zé Ramalho e posterior ao tricórdio. É nesse meio que a parceria fica inteligível.



