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Lula Côrtes

Luiz Augusto Martins Côrtes

Nascimento: 1949 Recife, PE
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Compositor, cantor, pintor e poeta do Recife. Gravou Satwa e o Paêbirú com Zé Ramalho; morreu na cidade em 2011.

A cheia do Capibaribe carregou o estoque de um disco duplo que colecionadores passariam décadas caçando. Lula Côrtes, do Recife, tinha gravado Paêbirú com Zé Ramalho depois de uma ida à Pedra do Ingá, na Paraíba. Quem procura o nome hoje quase sempre quer esse vinil, o instrumento de três cordas trazido do Marrocos ou a confirmação de que o pintor e o músico são a mesma pessoa.

Luiz Augusto Martins Côrtes nasceu no Recife em 9 de maio de 1949 e morreu na mesma cidade em 26 de março de 2011, aos 61 anos. Cantor, compositor, instrumentista, artista visual e poeta, passou parte da adolescência em São Paulo, onde entrou em contato com o rock and roll. A vida pública em Pernambuco começa em 1970, com pôsteres e ilustrações ligados à psicodelia, antes de qualquer contrato nacional.

Quem foi Lula Côrtes

No disco ficou Lula. No registro, Luiz Augusto Martins Côrtes. A biografia do site da obra, escrita a partir da Enciclopédia Itaú Cultural, o apresenta como quem juntou música popular nordestina, psicodelia e rock progressivo fora do circuito Rio-São Paulo. O mesmo texto marca 1970 como início visual e 1973 como estreia gravada.

Em 1971 publicou, por conta própria, dois livros de poemas: Rarucorp, com a artista visual Kátia Mesel, e Hábito ou Vício. A parceria com Kátia não parou no papel. Em 1973 os dois criaram a produtora Abrakadabra, responsável por No Sub Reino dos Metazoários, de Marconi Notaro. Lula fez a capa e tocou no disco. Zé Ramalho entrou ali pela primeira vez como colaborador dele, na faixa “Made in PB”.

A pintura teve sala própria no Recife. Em 1973, a Coletiva Chantecler, curada por Paulo Bruscky, incluiu o trabalho dele. Em 1974, a individual Influências Cósmicas e Zodiacais mostrou cerca de 50 desenhos. A crítica pernambucana, no relato dessa biografia, viu um emaranhado de símbolos em que figura humana, planta e objeto industrial se cruzam. Não era capa encomendada por terceiro: era o outro ofício, no mesmo calendário da música.

  • 1949: nascimento no Recife, em 9 de maio.
  • 1971: poemas Rarucorp e Hábito ou Vício.
  • 1973: Satwa, com Lailson de Holanda, e a produtora Abrakadabra.
  • 1975: Paêbirú com Zé Ramalho, atingido pela cheia na Rozenblit.
  • 1980 e 1981: Rosa de Sangue e O Gosto Novo da Vida.
  • 2011: morte no Hospital Barão de Lucena, no Recife.

O tricórdio que saiu do Marrocos

Em 1972 ele passou a viajar. No Marrocos comprou um swinsen, instrumento de três cordas usado no malhun, a poesia cantada do Magrebe. Com os anos mudou o jeito de tocar, ajustou a peça e passou a chamá-la de tricórdio. Sem esse objeto, Satwa e Paêbirú perdem o centro. A biografia oficial descreve o disco de estreia como o encontro dessa corda marroquina com a viola de doze cordas de Lailson de Holanda Cavalcanti, que tinha ouvido de perto a música do Festival de Woodstock.

O circuito em volta não era um movimento de manifesto e imprensa. Era estúdio, capa, poema e show pequeno em Recife, depois chamado de udigrudi. Nemo Côrtes, filho de Lula e idealizador do Festival Lula Côrtes em 2025, disse ao Diario de Pernambuco que o pai articulava gente e que a casa funcionava como encruzilhada de classes e ofícios. O comentário ajuda a ler o disco: os convidados não eram figurantes de capa, eram a sala.

Satwa e a Abrakadabra

Satwa saiu em 1973. O texto do álbum no site da obra, assinado por Bento Araújo, trata o LP como primeiro disco independente de rock no país e como estreia do coletivo Abrakadabra. Lula e Lailson tinham voltado de viagem com ideias na mala. Lailson, cartunista e músico, já tocara no Phetus ao lado de Paulo Rafael e Zé da Flauta, nomes que seguiriam na Ave Sangria e na banda de Alceu Valença. Os dois decidiram gravar só com a viola de doze cordas e o tricórdio.

O mesmo texto situa as onze madrugadas de janeiro de 1973 no estúdio da Rozenblit. Lailson usou o dinheiro guardado para uma viagem futura e pagou a prensagem. A fábrica aceitou tirar poucas cópias, distribuídas à mão. A biografia do site ouve o disco como variações de um tema só, entre câmara e sertão. O relançamento no exterior, nos anos 2000, é o que a página de vida registra no fim da trajetória, junto com a Europa e os Estados Unidos, sem transformar o LP num troféu.

Paêbirú, a Pedra do Ingá e a cheia

Em 1974, Lula, Kátia Mesel e Zé Ramalho foram ao sítio da Pedra do Ingá. Voltaram com o conceito de Paêbirú (Caminho da Montanha do Sol), gravado na Rozenblit. O duplo separa Terra, Ar, Fogo e Água, um elemento por lado. Entram temas ligados aos índios cariri, estudos de violão de Geraldo Azevedo, maracatu, repente alagoano e candomblé. Na gravação também estão Alceu Valença e Don Tronxo.

O plano de lançamento em 1975 bateu na cheia do Capibaribe, que atingiu o estoque da gravadora. A biografia oficial fala em 2 mil LPs inutilizados, entre eles a tiragem de Paêbirú, e guarda duas versões do que sobrou. Numa, as matrizes teriam escapado e ido em 1976 para uma fábrica em São Paulo. Noutra, cerca de 300 exemplares com Kátia Mesel teriam sido os únicos vendidos. Reportagens e a ficha da reedição em vinil falam em 1.300 cópias prensadas e cerca de mil perdidas. A conta não fecha entre as fontes. O que fecha é o efeito: o disco virou peça rara. Os três únicos shows de lançamento ocorreram de 16 a 18 de julho de 1976, no Nosso Teatro, em Recife.

A volta às lojas demorou. O selo inglês Mr. Bongo fez nova edição em 2008. Em 2019 a Polysom prensou o vinil no Brasil. Em 2010, a feitura do álbum virou o documentário Nas Paredes da Pedra Encantada, de Cristiano Bastos e Leonardo Bonfim. Em maio de 2025, o Diario de Pernambuco noticiou o Festival Lula Côrtes no Teatro do Parque, pelos 50 anos do disco, com Ave Sangria, Anjo Gabriel e filmes em super-8 de Kátia Mesel. Em 1975, ainda no calendário da turnê, Lula entrou na banda de Alceu Valença em Vou Danado Pra Catende.

Rosa de Sangue, a Ariola e o fim

No fim dos anos 1970 ele gravou Rosa de Sangue, pela Rozenblit, associado a 1980, e O Gosto Novo da Vida, pela Ariola, em 1981. Problemas de contrato travaram a distribuição dos dois. A biografia diz que Rosa de Sangue só voltou ao público em 2009, numa edição fora do circuito original. A página do álbum, também no site da obra, registra outra volta: em 2019 a Polysom relançou o disco, licenciado pela Somax, que detém o acervo da Rozenblit. São dois retornos, não um só.

Em 1988 saiu o instrumental Bom Shankar Bolenajh, pela Continental, com Jarbas Mariz. No mesmo ano ele gravou com a banda recifense Má Companhia. Lula Côrtes & Má Companhia chegou ao público de forma independente em 1995. No fim da vida trabalhou como assessor cultural na prefeitura de Jaboatão dos Guararapes e alcançou os relançamentos estrangeiros. Morreu na madrugada de 26 de março de 2011, no Hospital Barão de Lucena, de câncer na garganta.

O que o nome ainda responde

Não há agenda de show para consultar. Lula morreu em 2011. A pergunta prática é outra: qual disco é o raro, o que é o tricórdio, e se a pintura, a poesia e a música cabem na mesma biografia. Cabem. O mapa estável continua em lulacortes.com, com a discografia, a galeria e o projeto Atípicos, de mapeamento das pinturas, conduzido pela Rede Lula Córtex com incentivo do Funcultura. Para situar o período entre outros cantores e compositores, o arquivo de música reúne nomes do mesmo ofício, sem misturar a cena recifense com qualquer carreira posterior.

Ouvir hoje não depende do vinil de 1975 que a enchente levou. Spotify e SoundCloud ligados à obra sustentam a escuta. O vinil da Polysom, quando aparece, é a porta de quem quer o objeto. O rosto jovem do retrato em preto e branco, feito por Carlos Ebert nos anos 1970, e o close tardio usado na biografia oficial são a mesma pessoa em duas idades: barba escura no Satwa, barba branca no fim. O intervalo entre as duas fotos é a discografia.

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Satwa
Satwa
Disco de 1973 de Lula Côrtes e Lailson, gravado em onze madrugadas na Rozenblit com viola de doze cordas e tricórdio.
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Paêbirú
Paêbirú
Disco duplo de 1975 de Lula Côrtes e Zé Ramalho, com um elemento da natureza em cada lado e tiragem rara após a cheia na Rozenblit.
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Rosa de Sangue
Rosa de Sangue
Álbum de 1980 de Lula Côrtes com a banda Montanhas e convidados; a Polysom relançou o vinil em 2019, licenciado pela Somax.
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