Rosa de Sangue é o disco em que Lula Côrtes tentou fechar a década psicodélica e acabou sem distribuição. A página do álbum no site da obra, com texto de Bento Araújo, situa o fim dos anos 1970 como ruptura: o coletivo Abrakadabra, o casamento, a parceria com Zé Ramalho e o selo Solar ao mesmo tempo em que a Rozenblit sofria com os alagamentos do parque industrial. Lula organizou no Recife um show de despedida daquele repertório, com os músicos do período, e quis um LP que encerrasse o ciclo. Desse impulso saiu Rosa de Sangue, gravado com a banda Montanhas.
A gravação não ficou no grupo novo. Amigos entraram no estúdio. A ficha cita Alceu Valença, Paulo Rafael, Jarbas Mariz, Cátia de França, Ricardo Uchôa, Zé da Flauta e Flávio Lira, entre outros. O texto chama o resultado de primeiro disco solo e de retrato da vida até ali. A capa, uma rosa vermelha com o título em diagonal e a tarja colorida da Rozenblit, é a imagem que identifica o LP quando ele reaparece.
Por que o disco sumiu antes de chegar
Antes da distribuição, Lula fechou com a Ariola O Gosto Novo da Vida, de 1981. A biografia oficial junta os dois álbuns no mesmo problema de contrato: os dois tiveram a circulação dificultada, e Rosa de Sangue só voltou ao público em 2009, numa edição fora da Rozenblit. A página do disco acrescenta o capítulo brasileiro: em 2019 a Polysom relançou o álbum, licenciado pela Somax, detentora dos direitos do acervo da fábrica extinta.
Há uma história, apresentada no próprio site como lenda, de que a prensagem original modesta teria sido confiscada e destruída. Não dá para repetir isso como fato. Dá para registrar o que as duas páginas sustentam sem rumor: o disco de 1980 não circulou como os autores esperavam, ficou raro, e teve reedição tardia. O Gosto Novo da Vida, na Ariola, é o solo que conseguiu selo nacional no ano seguinte. Rosa de Sangue é o que ficou retido no capítulo anterior.
Lados e faixas
A ficha do relançamento organiza o LP assim:
- Lado 1: Lua Viva, Balada da Calma, Casaco de Pedras, Nordeste Oriental, Bahjan (Oração Indiana).
- Lado 2: São Várias as Trilhas (Disco Voador), Noite Prêta, Dos Inimigos, A Pisada é Essa, Rosa de Sangue.
“Lua Viva” e “Nordeste Oriental” são as faixas que mais aparecem quando o nome do disco volta em plataforma. “Bahjan (Oração Indiana)” mostra que o interesse pelo som trazido de fora, já visível no tricórdio de Satwa, não acabou em 1973. “São Várias as Trilhas (Disco Voador)” carrega no título o gosto por nome comprido, o mesmo humor de estúdio de “Blue do Cachorro Muito Louco”. A faixa-título fecha o segundo lado.
O que este LP acrescenta à discografia
Quem só conhece Paêbirú encontra aqui outro Lula: solo, banda Montanhas, convidados da cena pernambucana e um disco pensado como ponto final. Não é ponto final. Em 1988 viriam Bom Shankar Bolenajh, com Jarbas Mariz, pela Continental, e a gravação com a Má Companhia, lançada independente em 1995. Rosa de Sangue fica no meio, entre a enchente de 1975 e a Ariola de 1981. Serve para quem quer o retrato desse intervalo, não uma coletânea. A capa com a rosa e o vinil da Polysom de 2019 são o caminho concreto de achar o objeto certo, sem confundir com o duplo de Zé Ramalho.



