Satwa não explica Lula Côrtes inteiro, mas explica por que a música dele começa com dois instrumentos e uma prensagem curta. Em janeiro de 1973, ele e Lailson de Holanda Cavalcanti passaram onze madrugadas no estúdio da Rozenblit, em Recife. Do outro lado do vidro não havia orquestra. Havia a viola de doze cordas de Lailson e o tricórdio que Lula trouxera do Marrocos, um swinsen de três cordas rebatizado por ele.
O texto do álbum publicado no site da obra, assinado por Bento Araújo em diálogo com o livro Lindo Sonho Delirante, trata Satwa como o primeiro disco independente de rock no Brasil e como a estreia do coletivo Abrakadabra, fundado por Lula. Os dois tinham voltado de viagem. Lailson, além de cartunista, já tocara no Phetus com Paulo Rafael e Zé da Flauta. A escuta que o próprio texto lista é concreta: rock, folk, blues, psicodelia, ragas indianos e um tempero nordestino. Uma das faixas se chama “Valsa dos Cogumelos”. O disco não esconde de onde tirou o vocabulário.
Como o vinil saiu da gaveta
Lailson usou o dinheiro separado para uma viagem e pagou a confecção. A Rozenblit aceitou prensar poucas cópias. A distribuição foi artesanal. Por isso a prensagem original virou raridade mesmo entre quem já conhece a cena pernambucana dos anos 1970. Lailson, no mesmo relato, diz que sabia estar fazendo algo diferente e que não imaginava o disco como marco do rock independente. A frase importa porque tira o álbum do cartaz e devolve ao estúdio: onze noites, dois músicos, uma fábrica local.
A biografia oficial ouve essas faixas como variações de um mesmo tema, com acento de câmara e de sertão, sem grandes saltos de melodia. Não é um disco de singles. É um lado e outro de um só clima. Quem chega de Paêbirú, gravado dois anos depois com Zé Ramalho, encontra aqui o ensaio: o tricórdio já está no centro, a viola nordestina também, e a banda grande ainda não entrou.
O que tem em cada lado
A ficha publicada com o álbum organiza o LP assim:
- Lado 1: Satwa, Can I Be Satwa, Alegro Piradíssimo, Lia a Rainha da Noite, Apacidonata.
- Lado 2: Amigo, Atom, Blue do Cachorro Muito Louco, Valsa dos Cogumelos, Alegria do Povo.
Os títulos misturam inglês de brincadeira, apelido e nome de dança. “Can I Be Satwa” e “Blue do Cachorro Muito Louco” mostram o tom do duo melhor do que qualquer rótulo de gênero: psicodelia com humor de estúdio, não com pose de festival. “Alegria do Povo” fecha o segundo lado num nome que poderia ser de frevo e aqui é faixa de um disco caseiro que a fábrica só aceitou porque alguém pagou a prensa.
Para quem o disco serve agora
Satwa interessa a quem quer o começo, não o mito da enchente. Paêbirú é o objeto caro. Este é o disco em que o instrumento novo ainda está sendo aprendido e a Abrakadabra ainda está nascendo. A página do álbum em lulacortes.com é o lugar certo para cruzar ficha, capa e contexto. Reedição estrangeira nos anos 2000 existe no relato biográfico, mas a escuta não depende dela: o que define Satwa continua sendo janeiro de 1973, a viola de Lailson e o tricórdio.



