A Rádio Sociedade do Rio de Janeiro entrou no ar em 20 de abril de 1923 para provar uma tese: o rádio podia ser mais do que diversão. Fundada por Edgard Roquette-Pinto com o apoio de membros da Academia Brasileira de Ciências, a emissora nasceu de uma recusa — ele não aceitou que o novo meio de comunicação ficasse restrito a poucos aparelhos importados e a programas de entretenimento.
A primeira transmissão radiofônica do país havia acontecido um ano antes, na Exposição do Centenário da Independência, com equipamentos trazidos por empresários americanos instalados no morro do Corcovado. Roquette-Pinto tentou convencer o governo a comprar os aparelhos; sem resposta, foi à Academia Brasileira de Ciências, que adquiriu o equipamento e viabilizou a fundação da emissora.
Como funcionava a rádio
Na década de 1920, o modelo mais próximo do que a Rádio Sociedade queria fazer era o das agremiações lítero-musicais: palestras, recitais e saraus. A diferença é que a emissora podia irradiar essa programação. Quem tinha um receptor em casa podia acompanhar cursos, conferências, poesia, literatura e música de concerto.
Em 1926, a rádio lançou a revista Eléctron, dedicada à tecnologia do rádio e dirigida por Roquette-Pinto — a primeira publicação do gênero no Brasil. A estação também formou uma geração de ouvintes acostumados a tratar o rádio como fonte de informação e cultura, e não apenas como passatempo.
A doação ao governo e o nascimento da Rádio MEC
Em 1936, a nova legislação de comunicações passou a exigir transmissores mais potentes, e a Rádio Sociedade não tinha capital para se expandir. Roquette-Pinto descartou transformar a emissora em negócio comercial e preferiu doá-la ao Ministério da Educação e Saúde. Impôs uma condição: a programação deveria ser educativa e cultural, sem proselitismo comercial, político ou religioso.
A estação passou a se chamar Rádio Ministério da Educação — ou simplesmente Rádio MEC — e permanece no ar, hoje como emissora da Empresa Brasil de Comunicação, com programação de música brasileira e conteúdo cultural. A página oficial da emissora apresenta a grade atual, os programas e as frequências em AM e FM.
A rádio na história da comunicação brasileira
Depois da doação, a emissora manteve por décadas uma programação cultural que reuniu colaboradores como Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Fernanda Montenegro e Francisco Mignone. Essa continuidade fez da Rádio MEC uma referência de resistência cultural e um dos poucos espaços em que música de concerto, poesia e ciência conviveram na programação de uma emissora pública.
O prédio histórico da emissora no Rio de Janeiro e a preservação do seu arquivo sonoro ajudam a contar essa história para pesquisadores e ouvintes. A rádio segue transmitindo em AM e FM e mantém a marca de ter sido a primeira estação oficial do país.
Por que a Rádio Sociedade ainda importa
A experiência de 1923 é considerada a semente do rádio educativo no Brasil. O modelo de concessão pública com finalidade cultural, a ideia de que o meio deve servir à formação do ouvinte e a própria noção de radiodifusão pública foram discutidos e testados naquela emissora antes de virar política estatal.
Para quem estuda comunicação, história do rádio ou políticas de educação, a trajetória da Rádio Sociedade explica como o Brasil entrou na era da radiodifusão com um projeto de serviço público, e não apenas comercial. É também a obra que projetou nacionalmente o nome de Roquette-Pinto, três anos antes de ele assumir a direção do Museu Nacional.



