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Edgard Roquette-Pinto

Roquette-Pinto

Nascimento: 1884 Rio de Janeiro, RJ
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Médico legista, antropólogo e ensaísta, Edgard Roquette-Pinto fundou a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, dirigiu o Museu Nacional e ocupou a cadeira 17 da ABL.

Em 20 de abril de 1923, o médico legista Edgard Roquette-Pinto colocou no ar a primeira emissora oficial de rádio do Brasil, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, com uma proposta que destoava do entretenimento importado: fazer do novo meio um instrumento de educação. O gesto resume uma trajetória que atravessou a medicina legal, a antropologia, o magistério, os museus e a literatura, e que tornou o carioca nascido em 25 de setembro de 1884 uma das figuras centrais da ciência e da comunicação no Brasil da primeira metade do século XX.

Roquette-Pinto foi médico, antropólogo, etnólogo, professor e ensaísta. Ocupou a cadeira 17 da Academia Brasileira de Letras, dirigiu o Museu Nacional e fundou o Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE). Quem chega ao seu nome costuma procurar uma dessas frentes — o pioneiro da radiodifusão, o autor de Rondônia ou o pesquisador que enfrentou o racismo científico de seu tempo —, mas a trajetória é uma só: a de um intelectual que tratou a difusão do conhecimento como política pública.

Quem foi Edgard Roquette-Pinto

Nascido e morto no Rio de Janeiro (1884–1954), formou-se em medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1905. Ainda recém-formado, iniciou estudos sobre os sambaquis do litoral do Rio Grande do Sul, tema que o afastou da clínica e o aproximou da pesquisa antropológica. Em 1906, tornou-se professor assistente de antropologia no Museu Nacional, instituição à qual permaneceria ligado por décadas. Lecionou história natural na Escola Normal do Distrito Federal a partir de 1916 e fisiologia na Universidade Nacional de Assunção, no Paraguai, em 1920.

A Missão Rondon e o livro Rondônia

Em 1912, Roquette-Pinto integrou a Missão Rondon e passou semanas em contato com os nambiquaras, povo indígena que até então tinha escasso contato com a sociedade nacional. Na volta, trouxe vasto material etnográfico e transformou a experiência em Rondônia: Anthropologia - Ethnographia, publicado em 1917 e considerado um clássico da antropologia brasileira.

Os estudos sobre os tipos antropológicos do país ganharam destaque porque contrariavam o pensamento racial dominante: para ele, a miscigenação não havia produzido populações degeneradas. O problema brasileiro não estava na raça, mas nas condições sociais, na falta de educação e de saúde pública — conclusão que o acompanhou nas décadas seguintes. No rádio, nos museus e nos livros, a mesma convicção reaparecia: era preciso levar conhecimento a quem não tinha acesso a ele.

O rádio como instrumento de educação

A primeira transmissão radiofônica no Brasil ocorreu em 1922, na Exposição do Centenário da Independência, com um discurso do presidente Epitácio Pessoa captado em Niterói, Petrópolis e São Paulo. Diante da novidade, Roquette-Pinto teria resumido o que via: "Eis uma máquina importante para educar nosso povo".

Ele tentou convencer o governo a comprar os equipamentos apresentados na feira. Sem sucesso, levou a proposta à Academia Brasileira de Ciências, que adquiriu os aparelhos, e fundou a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. A programação era feita de palestras, recitais e cursos — uma emissora que ensinava poesia, literatura e ciência, no formato das agremiações lítero-musicais da época. Em 1926, a rádio lançou a revista Eléctron, primeira publicação brasileira dedicada à tecnologia do rádio, dirigida por ele.

Em 1936, pressionado pela nova lei de comunicações, que exigia transmissores mais potentes, Roquette-Pinto doou a emissora ao Ministério da Educação e Saúde, com a condição de que mantivesse apenas programação educativa e cultural, sem proselitismo comercial, político ou religioso. Nascia ali a Rádio MEC, que continua no ar e carrega o ideário educativo do fundador.

Museu Nacional e cinema educativo

Roquette-Pinto assumiu a direção do Museu Nacional em 1926 e organizou ali a maior coleção de filmes científicos do país. A experiência o levou a defender o cinema como ferramenta de ensino. Em 1936, com o apoio do ministro Gustavo Capanema, fundou o Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE), que chamou o cineasta Humberto Mauro para a direção técnica. Juntos, produziram centenas de documentários de curta-metragem exibidos em escolas de todo o Brasil.

A cadeira 17 da Academia Brasileira de Letras

Em 20 de outubro de 1927, Roquette-Pinto foi eleito para a cadeira 17 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Osório Duque-Estrada. Foi recebido pelo acadêmico Aloísio de Castro em 3 de março de 1928 e, anos depois, recebeu Afonso Taunay (1930) e Miguel Osório de Almeida (1935). Foi colega de Academia de nomes como Manuel Bandeira, com quem aparece em registros fotográficos dos anos 1930 ao lado de outros intelectuais do período.

Eugenia, miscigenação e racismo científico

Roquette-Pinto presidiu com Renato Kehl o Primeiro Congresso Brasileiro de Eugenia, realizado no centenário da Academia Nacional de Medicina, no fim dos anos 1920. O encontro reuniu parte da intelectualidade latino-americana em torno de um debate que hoje é lido com reservas. A posição dele, no entanto, era distinta da dos eugenistas radicais: defendia o que se chamou de "eugenia positiva", voltada a melhorar as condições físicas e mentais de toda a população, sem excluir negros e mestiços. Criticava a esterilização e a segregação propostas por Kehl e por outros nomes do movimento, no qual também circulava Monteiro Lobato.

Principais obras

  • O exercício da medicina entre os indígenas da América (1906)
  • Excursão à região das Lagoas do Rio Grande do Sul (1912)
  • Guia de antropologia (1915)
  • Rondônia: Anthropologia - Ethnographia (1917)
  • Seixos rolados (1927)
  • Glória sem rumor (1928)
  • Ensaios de antropologia brasiliana (1933)
  • Samambaia (1934)
  • Ensaios brasilianos (1941)

Qual é o legado de Roquette-Pinto

Roquette-Pinto morreu no Rio de Janeiro em 18 de outubro de 1954, dois meses depois do suicídio de Getúlio Vargas, em um momento em que tentava viabilizar um canal de televisão educativa que nunca saiu do papel. O legado, porém, seguiu em frente: a Rádio MEC permanece no ar, os filmes do INCE são preservados pela Cinemateca Brasileira e o ideal de educação como direito de todos ganhou espaço no debate público brasileiro.

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Rádio Sociedade do Rio de Janeiro
Rádio Sociedade do Rio de Janeiro
Primeira emissora oficial de rádio do Brasil, fundada por Roquette-Pinto em 1923 para transmitir educação e cultura; deu origem à Rádio MEC.
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