Alberto Mussa é um escritor carioca que transformou os crimes do Rio de Janeiro em matéria de investigação literária. Sua obra mais ambiciosa, o Compêndio Mítico do Rio de Janeiro, reúne cinco romances policiais, um para cada século da história carioca, e parte de uma tese repetida pelo autor em entrevistas: uma cidade não se define pelo temperamento do seu povo, mas pela história dos seus crimes. A série percorre do primeiro assassinato registrado no Rio, em 1567, ao caso que abre O Senhor do Lado Esquerdo, ambientado em 1913 e premiado pela Academia Brasileira de Letras e pela Fundação Biblioteca Nacional.
Nascido no Rio de Janeiro em 28 de junho de 1961, Alberto Baeta Neves Mussa formou-se em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e dedicou a dissertação de mestrado ao papel das línguas africanas na constituição do português do Brasil. Essa formação linguística e etnográfica atravessa a ficção que ele começou a publicar nos anos 1990, construída sobre mitologias indígenas, africanas e da Arábia pré-islâmica, em uma prosa que se afasta do realismo convencional para investigar como as sociedades narram seus mitos e suas transgressões.
Quem é Alberto Mussa
Mussa é romancista, contista e tradutor. Estreou na literatura em 1997 com Elegbara, livro de contos inspirado na mitologia dos nagôs, e chegou ao romance dois anos depois com O Trono da Rainha Jinga, escrito com apoio de bolsa da Fundação Biblioteca Nacional e ambientado no Rio do século XVII. O livro abriu o que se tornaria o projeto central da sua carreira: contar a formação da cidade por meio de crimes, cada romance em um século diferente.
Antes disso, ainda nos anos 1990, ele mergulhou na poesia árabe pré-islâmica, pesquisa que resultou na tradução Os Poemas Suspensos (2006) e no romance O Enigma de Qaf (2004), o mais traduzido de seus livros. O interesse por mitos também rendeu O Movimento Pendular (2006), inspirado em Jorge Luis Borges e em pesquisas antropológicas sobre o adultério, e o ensaio ficcional Meu Destino é Ser Onça, sobre a cosmogonia tupinambá.
Como funciona o Compêndio Mítico do Rio de Janeiro
O Compêndio reúne cinco romances policiais independentes, mas conectados pela mesma tese. Cada volume escolhe um século da história carioca e um crime como ponto de partida, misturando figuras históricas, mitologia indígena e africana, documentos e invenção. A nova edição dos títulos pela Record, lançada em 2025, reorganizou a série na ordem dos séculos, o que ajuda o leitor a enxergar o desenho completo.
- A Primeira História do Mundo (século XVI): parte do primeiro assassinato registrado no Rio, em 1567, e recria o Brasil colonial entre piratas, aventureiros e uma terra sem lei.
- O Trono da Rainha Jinga (século XVII): investiga cinco crimes atribuídos a uma irmandade secreta de escravizados.
- A Biblioteca Elementar (século XVIII): romance de 2018, o mais recente da série em ordem de publicação.
- A Hipótese Humana (século XIX): romance de 2017 que tem a transgressão como tema central.
- O Senhor do Lado Esquerdo (século XX): o assassinato de um secretário da Presidência em 1913 conduz a trama mais premiada do autor.
O Compêndio dialoga com a tradição da literatura policial brasileira, na qual o Rio de Janeiro ocupa lugar central, o mesmo território explorado por Luiz Alfredo Garcia-Roza, outro autor que fez do cotidiano carioca matéria de crime e investigação.
Prêmios, traduções e reconhecimento internacional
O Enigma de Qaf foi eleito pelo jornal O Globo o melhor romance de 2004 e venceu o Prêmio APCA e, em 2005, o Prêmio Casa de las Américas na categoria de literatura brasileira, por unanimidade do júri. O Senhor do Lado Esquerdo recebeu o Prêmio ABL de Ficção e o Prêmio Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional. A Primeira História do Mundo ficou em terceiro lugar no Prêmio Oceanos de 2015.
A obra de Mussa soma publicações em 17 países e 15 idiomas, com edições na Argentina, em Cuba, Portugal, Itália, França, Inglaterra, Romênia, Turquia e Egito, onde O Enigma de Qaf foi traduzido para o árabe. O romance também foi apontado como uma das maiores obras da literatura brasileira recente por leitores e críticos.
Samba, mito e a cidade
Fora da ficção policial, Mussa pesquisou o samba de enredo em parceria com Luiz Antonio Simas. Os dois escreveram Samba de Enredo: História e Arte, estudo que analisa a evolução estética do gênero a partir da leitura de cerca de 1.600 canções e ganhou nova edição revista e ampliada em 2023. O interesse pela cultura popular também aparece em Meu Destino é Ser Onça, ensaio ficcional sobre os mitos tupinambás, e em A Origem da Espécie, livro de 2021 sobre o mito do roubo do fogo.
Em entrevistas, Mussa costuma dizer que o reconhecimento mais importante é o leitor conquistado, não o prêmio, e que escreve movido por problemas que a mitologia propõe. Questionado sobre o livro que gostaria de ter escrito, escolheu Asfalto Selvagem, de Nelson Rodrigues. Em 2024, lançou o romance policial A Extraordinária Zona Norte, e em 2026 publicou o conto A Milhar do Galo em formato de plaquete.
Perguntas frequentes sobre Alberto Mussa
Quais são os livros de Alberto Mussa?
Entre contos, romances e ensaios, a obra inclui Elegbara (1997), O Trono da Rainha Jinga (1999), O Enigma de Qaf (2004), O Movimento Pendular (2006), Os Poemas Suspensos (2006), O Senhor do Lado Esquerdo (2011), A Primeira História do Mundo (2014), Os Contos Completos (2016), A Hipótese Humana (2017), A Biblioteca Elementar (2018), A Origem da Espécie (2021), A Extraordinária Zona Norte (2024) e A Milhar do Galo (2026).
Em que ordem ler o Compêndio Mítico do Rio de Janeiro?
Não há dependência entre os volumes: cada romance funciona sozinho. Quem quiser seguir a linha do tempo da cidade pode começar por A Primeira História do Mundo (século XVI) e terminar em O Senhor do Lado Esquerdo (século XX). Quem prefere entrar pela obra mais premiada pode começar por O Senhor do Lado Esquerdo ou por O Enigma de Qaf.
Por onde começar a ler Alberto Mussa?
Depende do interesse do leitor. Para o romance policial carioca, O Senhor do Lado Esquerdo e O Trono da Rainha Jinga são boas portas de entrada. Para a ficção de aventura e o universo árabe, O Enigma de Qaf. Para a pesquisa sobre cultura popular, Samba de Enredo: História e Arte e A Origem da Espécie.
Onde encontrar os livros de Alberto Mussa
As edições atuais dos romances do Compêndio e dos demais títulos são publicadas pela Record, com versões em livro físico e digital nas principais livrarias. O perfil do autor na Amazon reúne as edições disponíveis e serve como ponto de partida para quem quer conhecer a obra completa.






