Alice Ruiz S publicou mais de 20 livros e teve mais de 50 canções gravadas por vozes como Ney Matogrosso, Ná Ozzetti, Adriana Calcanhotto, Zélia Duncan, Itamar Assumpção e Elba Ramalho. Nascida em Curitiba, em 22 de janeiro de 1946, ela começou a escrever aos nove anos, publicou os primeiros poemas em jornais e revistas culturais na juventude e se tornou uma das principais responsáveis pela difusão do haicai no Brasil.
A trajetória dela não cabe em um único gênero. Alice escreve poesia curta, compõe letras, traduz autores japoneses, ministra oficinas e participou da vanguarda cultural de Curitiba nas décadas de 1960 e 1970. O fio que costura tudo isso é o haicai: três versos, 17 sílabas, atenção ao instante — forma que ela conheceu aos 22 anos, apresentada por Paulo Leminski.
Quem é Alice Ruiz S
Filha de um imigrante alemão e de uma imigrante espanhola, Alice Ruiz Schneronk nasceu em 1946, em Curitiba. Começou a escrever contos na infância e versos na adolescência. Os primeiros poemas em revistas e jornais culturais chegaram quando ela tinha pouco mais de 20 anos, e o primeiro livro, Navalhanaliga, só foi publicado em 1980, quando a poeta já acumulava uma década de poemas curtos e composições.
Naqueles anos, ela integrou o grupo de vanguarda Áporo, formado em 1969 por escritores que se propunham a combater o provincianismo cultural de Curitiba. Em 1971, entrou no grupo musical A Chave, marco inicial de sua carreira de letrista. No fim da década de 1970, roteirizou histórias em quadrinhos eróticas com Leminski na editora Grafipar, trabalho que só viria a público em livro décadas depois. Em 1987, tornou-se diretora de criação de uma agência de publicidade, ofício que exerceu paralelamente à poesia.
O haicai como ofício
O encontro com a forma japonesa não foi apenas literário. Aos 22 anos, Alice foi apresentada por Leminski ao haicai e à prática zen, que passaram a organizar sua maneira de observar o mundo: menos reflexão sobre si, mais apreensão do que está fora. A partir dos anos 1980, ela começou a publicar livros dedicados ao gênero e a traduzir poetas japoneses.
Em 1990, na Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre, Alice iniciou suas oficinas de haicai. O curso combinava teoria, contato com o zen budismo, exercícios de tradução, observação da natureza e escrita dos próprios poemas. Durante décadas, as oficinas levaram a poeta a diferentes cidades do país e formaram leitores e praticantes do gênero. A produção dela nessa área se tornou tema de artigos, dissertações e teses em universidades brasileiras.
Em 1993, a comunidade nipo-brasileira concedeu a Alice o nome de haicaísta Yuuka, distinção rara concedida na mesma cerimônia à poeta paranaense Helena Kolody. A tradução de poesia japonesa acompanha essa trajetória: Dez Haiku (1981), Céu de Outro Lugar (1985), Sendas da Sedução (1987) e Issa (1988), dedicado a Kobayashi Issa.
Poesia que virou canção
A carreira de letrista começou nos anos 1970 e ganhou força na década seguinte, quando os versos de Navalhanaliga foram musicados por Itamar Assumpção em um ônibus entre Curitiba e São Paulo. Da parceria de quase duas décadas nasceram canções como “Navalha na Liga” e “Milágrimas”. “Socorro”, escrita com Arnaldo Antunes, foi gravada por Cássia Eller em 1994, pelo próprio Arnaldo em 1998 e por Gal Costa em 2002.
Em 2005, Alice lançou com Alzira E o álbum Paralelas. Ao longo da carreira, compôs ainda com José Miguel Wisnik, Luiz Tatit, Chico César, Iara Rennó, Vange Milliet, Gustavo Galo e a filha, Estrela Ruiz Leminski. Para a poeta, letra de música não é poema com melodia: é outra construção, que precisa dividir espaço com ritmo, repetição, pausa e interpretação.
Prêmios e reconhecimento
Em 1989, Vice-Versos venceu o Prêmio Jabuti de Poesia. Vinte anos depois, Dois em Um repetiu o primeiro lugar na mesma categoria. Em 2026, a União Brasileira de Compositores concedeu a ela o Troféu Tradições, dedicado a mulheres de papel relevante na história da música brasileira — distinção que já havia homenageado Anastácia, Dona Onete, Lia de Itamaracá, Alaíde Costa e Rosa Passos.
Marcos da trajetória
- 1980 — publicação de Navalhanaliga, primeiro livro de poesia.
- 1981 a 1988 — traduções de haicais japoneses, entre elas Dez Haiku e Issa.
- 1989 — Prêmio Jabuti de Poesia por Vice-Versos.
- 1990 — início das oficinas de haicai na Casa de Cultura Mario Quintana.
- 1993 — recebe o nome de haicaísta Yuuka.
- 2005 — álbum Paralelas, com Alzira E.
- 2009 — Prêmio Jabuti de Poesia por Dois em Um.
- 2026 — Troféu Tradições, da União Brasileira de Compositores.
Onde encontrar a obra
Os livros de Alice Ruiz S circulam em edições da Editora Iluminuras e em versões digitais. O site oficial reúne release, bibliografia, discografia e agenda de shows e oficinas. Quem quer se aproximar pelo haicai pode começar pelos títulos dedicados ao gênero e seguir as trilhas de literatura e música, ou explorar outros autores em livros.






