Desorientais é um dos livros em que Alice Ruiz S leva o haicai ao limite da concentração. Os poemas trabalham um único instante de observação, quando olhar, ouvir, pegar, cheirar e provar deixam de ser gestos automáticos e passam a revelar alguma coisa que estava na frente do leitor o tempo todo.
O que os poemas observam
A matéria dos haicais vem de cenas comuns: um rio que vira avenida, a noite sobre um rio estrangeiro, o vento entre bambus, o fim de tarde entre uma estrela e um vagalume. O livro se detém em objetos concentrados — uma faísca, um grão, uma sílaba, um chip — e usa zooms repentinos entre campos de visão e escalas de tempo. Um mesmo poema pode passar da paisagem ao detalhe e do detalhe à memória em poucas palavras.
Outra marca do volume é a sinestesia, o cruzamento entre os sentidos. Cheiro, som e imagem se misturam nos poemas, que deslocam o leitor de lugar sem sair do cotidiano. É uma poesia que exige pausa: cada texto pede para ser lido devagar, como quem observa.
Como ler
O livro não pede leitura corrida. Os poemas curtos funcionam abertos em qualquer página, em doses pequenas, e ganham outra dimensão quando lidos em voz alta — o ritmo e as repetições de som são parte do efeito. A edição da Iluminuras tem 128 páginas, e a obra se conecta diretamente à prática de oficinas de haicai que Alice Ruiz S conduz desde 1990, nas quais observação da natureza e exercícios de escrita caminham juntos.
Haicai e tradução
A concisão de Desorientais não vem só da prática de escrever: vem também da leitura de poetas japoneses. Alice traduziu autores como Kobayashi Issa e publicou volumes dedicados a essa tradição, o que aparece no livro na forma de um olhar que confia no objeto, sem adjetivos e sem explicação. O haicai, aqui, funciona como exercício de retirar — e não de acrescentar — até sobrar o instante.
O lugar do livro na obra
Desorientais veio depois de Navalhanaliga e Vice-Versos, quando Alice já havia consolidado o haicai como forma principal de sua poesia. O volume aprofunda o que a poeta chama de tropicalização do haicai: a estrutura japonesa preservada, mas preenchida com o clima, a cidade e a língua do Brasil.
Para quem é
Desorientais interessa a leitores de poesia contemporânea, a praticantes de haicai e a quem procura um primeiro contato com a forma japonesa fora dos manuais. Também dialoga com a produção de literatura brasileira reunida no site e com os demais títulos de haicai da autora.





