Em 1995, a revista semanal mais vendida das bancas brasileiras não falava de política nem de futebol: falava de Cavaleiros do Zodíaco, quadrinhos, games e cultura pop japonesa. A Herói era o projeto mais visível de André Forastieri, jornalista com passagem pela redação da Ilustrada, na Folha de S.Paulo. Três décadas depois, o mesmo jornalista voltou a esse universo para participar de dois projetos que resgataram a memória da imprensa geek brasileira: o livro Nintendistas e o relançamento da própria Herói.
André Forastieri nasceu em Piracicaba, no interior de São Paulo, em 1965, e se formou em Jornalismo pela Universidade de São Paulo. Trabalha como jornalista desde 1988 e construiu uma trajetória rara: foi repórter e editor em redações tradicionais, fundou e vendeu editoras, dirigiu publicações de tecnologia e games, tornou-se um dos brasileiros mais seguidos do LinkedIn e, nos últimos anos, transformou-se em criador de conteúdo próprio, com podcast e newsletter. Quem procura o nome dele costuma cruzar peças de épocas muito diferentes — a Folha de S.Paulo, a Herói, a Conrad, a Nintendo World, o R7 — e todas pertencem à mesma biografia.
Da Ilustrada às revistas de música
O início da carreira de Forastieri se deu na Folha de S.Paulo, onde escreveu principalmente sobre música e cinema no caderno Ilustrada e assinou uma coluna de HQ. Depois, assumiu a edição do Folhateen, suplemento voltado ao público jovem que ajudou a formar uma geração de leitores de cultura pop.
Na virada dos anos 1990, foi editor-chefe de duas revistas que marcaram a cobertura musical brasileira: a SET e a Bizz. Foi nesse período que acumulou o repertório que mais tarde apareceria em seus livros: entrevistas, críticas e reportagens sobre a indústria fonográfica, o rock e a relação entre música e comportamento.
Acme, Herói e Conrad: como o mercado geek brasileiro ganhou escala
Em 1993, Forastieri fundou a Editora Acme, que começou com a revista General e chegou ao título mais conhecido da casa: a Herói, publicação pioneira na cobertura de anime, quadrinhos, games e do universo geek no Brasil. A revista era coeditada pela Editora Sampa e, em 1995, tornou-se a semanal mais vendida nas bancas do país. O sucesso mostrou que existia um público grande e mal atendido para games e quadrinhos no mercado editorial brasileiro.
Em 1998, ele foi cofundador da Conrad Editora, uma das primeiras casas brasileiras a investir pesado em mangás e líder em revistas de games, com títulos como Nintendo World, Pokémon Club e EGM Brasil. A Conrad Livros veio na sequência, com uma linha editorial que misturava quadrinhos, política e literatura — uma combinação incomum para a época.
- 1988: início da carreira como jornalista
- 1993: fundação da Editora Acme, origem da revista Herói
- 1998: cofundação da Conrad Editora, referência em mangás e revistas de games
- 2005: criação da Futuro Comunicação, que lançou a PC Magazine no Brasil
- 2008 a 2017: passagem pelo portal R7, como blogueiro e depois editor executivo
- 2018: escolhido Top Voice do LinkedIn
- 2020: estreia do podcast ABFP
Futuro Comunicação, PC Magazine e a passagem pelo R7
Em 2005, Forastieri deixou a Conrad e fundou a Futuro Comunicação, empresa que lançou a versão brasileira da PC Magazine, importante título americano de tecnologia. Em parceria com a Ediouro, criou a editora Pixel Media, dedicada a quadrinhos, da qual se afastou em 2008. No mesmo período, assumiu a direção editorial da Tambor Gestão de Negócios, responsável por revistas como PC Magazine, Nintendo World, EGW e Movie, além de sites ligados a esses títulos.
Entre outubro de 2008 e 2014, foi blogueiro do portal R7. Depois, entre março de 2014 e outubro de 2017, atuou como editor executivo do portal, comandando o setor de entretenimento em uma das maiores operações de conteúdo digital do país. Essa fase consolidou a transição dele para o ambiente digital, que mais tarde renderia frutos em negócios de mídia e em projetos próprios.
LinkedIn, podcast ABFP e a newsletter no Substack
Nos anos 2010, Forastieri se tornou um dos brasileiros mais influentes do LinkedIn, rede em que passou de 500 mil seguidores e foi escolhido como Top Voice em 2018. Os textos que publica por lá tratam de trabalho, carreira, comunicação e negócios — uma extensão natural da experiência de quem dirigiu redações e empresas de mídia.
Em maio de 2020, estreou o podcast ABFP ao lado de André Barcinski e Paulo César Martin, com participações esporádicas de Álvaro Pereira Júnior. O programa virou ponto de encontro de uma comunidade de ouvintes interessados em música, cultura pop e boas histórias, e hoje tem no Mixcloud sua plataforma principal.
Mais recentemente, levou sua escrita para o Substack, onde mantém a newsletter André Forastieri, com mais de 7 mil assinantes e o lema “À procura de serenidade, coragem e sabedoria”. Ele também é fundador da comunidade Homework, voltada a profissionais de conteúdo e comunicação.
Livros, Nintendistas e a volta da Herói
A produção editorial de Forastieri como autor começou em 2014, com O Dia em Que o Rock Morreu, uma viagem por 25 anos de crítica musical que reúne textos sobre ídolos mortos do rock, a indústria fonográfica e o reencontro com Kurt Cobain. Em 2016 veio Herói – A História da Revista que Inspirou Uma Geração, escrito com a jornalista Arianne Brogini, que reconstitui a trajetória do título que ele criou nos anos 1990.
Em 2025, ele integrou o conselho editorial do livro Nintendistas, projeto organizado por Pablo Miyazawa que reconstrói a história da Nintendo no Brasil em parceria com nomes da revista Nintendo World. A campanha de financiamento coletivo reuniu mais de 1.600 apoiadores. No mesmo ano, participou do relançamento da Herói, que voltou às prateleiras em edições de colecionador pela editora Forastieri Serviços Editoriais. A relação com Rodrigo Coelho, outro nome forte da cultura gamer brasileira, se estreitou nesse período.
Para quem acompanha livros e memória da imprensa cultural, os dois movimentos dizem muito sobre o momento atual do jornalista: a obra do passado e a do presente se encontram no mesmo esforço de registrar como a cultura pop brasileira se formou.
O que André Forastieri faz hoje
Hoje, Forastieri desenvolve projetos de comunicação e conteúdo por meio de sua empresa, a Compasso, e mantém uma rotina de publicações que combina a newsletter no Substack, o podcast ABFP e a presença constante no LinkedIn. Segue escrevendo sobre o que sempre moveu sua carreira: entender como as pessoas se conectam com música, quadrinhos, games e histórias — e transformar essa conexão em conteúdo, negócios e, agora, memória.






