Angélica Freitas transformou uma pergunta incômoda sobre o corpo feminino em um dos livros de poesia brasileiros mais comentados das últimas décadas. Nascida em Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 8 de abril de 1973, ela é poeta, tradutora e jornalista de formação, com uma obra que circula entre o humor, a crítica social e uma sintaxe enxuta, capaz de misturar referências eruditas e cultura pop — combinação que já aparece no título do livro de estreia, Rilke shake.
A trajetória dela atravessa Porto Alegre, São Paulo, Buenos Aires e Berlim, cidade onde vive desde julho de 2020. Quem procura o nome de Angélica Freitas costuma encontrar três frentes de trabalho: os livros de poemas publicados pela Cosac Naify e pela Companhia das Letras, a tradução de autores alemães, ingleses e americanos e as parcerias com músicos e artistas visuais. Um episódio ajudou a levar os versos dela para fora do circuito literário: em 2018, um poema do livro Um útero é do tamanho de um punho apareceu na prova do Enem. No ano seguinte, quando a obra entrou na lista de leituras obrigatórias do vestibular da UFSC e da UFFS, deputados estaduais de Santa Catarina apresentaram uma moção de repúdio ao livro — debate que ganhou as páginas dos jornais e transformou a poeta em nome conhecido também entre estudantes e professores.
De Pelotas a Berlim: a formação de uma poeta-tradutora
Antes de se dedicar à poesia, Angélica Freitas passou pela Faculdade de Letras e se formou em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Trabalhou como repórter no jornal O Estado de S. Paulo e na revista Informática Hoje, experiência que aparece na precisão dos textos curtos que ela viria a publicar. Em 2006, deixou São Paulo e iniciou uma sequência de temporadas no exterior, com passagens pela Holanda, Bolívia e Argentina até se estabelecer na Alemanha.
Os primeiros poemas dela foram publicados na Argentina, na antologia Cuatro poetas recientes del Brasil (2006), organizada e traduzida pelo crítico Cristian De Nápoli. No mesmo ano, participou de leituras públicas na Casa das Rosas, em São Paulo, e no Festival de Poesia Latino-americana de Buenos Aires. Depois vieram convites para o Poesiefestival Berlin (2008), para a Festa Literária Internacional de Paraty (2009) e para festivais no Chile e no México, além de traduções de poemas publicadas na Espanha, no México, nos Estados Unidos, na Alemanha e na França. Também editou os dois números da revista Modo de Usar & Co. (2007 e 2009).
Rilke shake: a estreia que cruzou fronteiras
O primeiro livro de poemas de Angélica Freitas saiu em 2007 pela coleção Ás de colete, dos selos 7Letras e Cosac Naify, com curadoria do poeta Carlito Azevedo. Rilke shake brinca com o peso do poeta Rainer Maria Rilke ao misturá-lo a um milk-shake, gesto que resume o método da autora: tratar temas densos com ironia e coloquialismo, sem abandonar o trabalho com a linguagem.
O livro deu origem a uma edição em inglês traduzida por Hilary Kaplan e publicada pela Phoneme Media, que venceu o Best Translated Book Award de poesia em 2016, prêmio americano dedicado a obras traduzidas. A Companhia das Letras reeditou Rilke shake em 2021 na coleção Poesia de Bolso, o que mantém o título em catálogo quase duas décadas depois do lançamento.
Um útero é do tamanho de um punho e o debate nacional
Publicado em 2012 pela Cosac Naify, Um útero é do tamanho de um punho reuniu poemas que questionam a construção social sobre o corpo feminino, os padrões estéticos e a moral sexual. A obra recebeu o Troféu APCA de 2012 e ficou entre os finalistas do Prêmio Portugal Telecom de 2013, além de se tornar o título mais citado da autora em vestibulares e salas de aula.
Em 2018, um poema do livro foi usado na questão 35 da prova do Enem, o que colocou os versos diante de milhões de candidatos. No ano seguinte, quando UFSC e UFFS incluíram a obra na lista de leituras obrigatórias do vestibular 2020, a decisão gerou polêmica na Assembleia Legislativa de Santa Catarina: um deputado apresentou a moção 463/2019, com pedido de repúdio ao livro, e o caso repercutiu em jornais de todo o país. A Companhia das Letras relançou o livro em 2017, e a poesia de Angélica Freitas segue sendo adotada em clubes de leitura, oficinas e listas de literatura de universidades brasileiras.
Canções de atormentar, Mostra monstra e a produção recente
Canções de atormentar, terceiro livro de poemas, saiu em 2020 pela Companhia das Letras e reúne textos guardados em cadernos antigos e poemas publicados em revistas ao longo dos anos, com carga memorialística e ritmo de canção. Cinco anos depois, em janeiro de 2025, a Círculo de Poemas publicou a plaquete Mostra monstra, que reúne versos e desenhos retirados dos cadernos em que a poeta experimenta novos caminhos para a escrita, num universo habitado por monstros nada assustadores.
Guadalupe: a incursão de Angélica Freitas nos quadrinhos
Em 2012, a mesma editora que publicava seus poemas lançou Guadalupe, graphic novel escrita por Angélica Freitas e ilustrada por Odyr. Na história, Guadalupe trabalha no sebo do tio Minerva, a Minerva Libros, recolhendo bibliotecas inteiras num furgão velho pela Cidade do México. Quando a avó Elvira morre num acidente de scooter, a personagem precisa cumprir o último desejo dela: um enterro com banda de música em Oaxaca. A viagem, que começa com um caixão no bagageiro e uma poodle a bordo, vira um road movie com mitologia asteca, cogumelos mágicos e um carona que se diz guatemalteco. O álbum tem 120 páginas e foi publicado pelo selo Quadrinhos na Cia.
Tradução, música e oficinas: as outras frentes
Angélica Freitas é tradutora com obra publicada em editoras brasileiras de peso: verteu para o português A consulta, da alemã Katharina Volckmer (Fósforo, 2021), os Diários de Virginia Woolf (Rocco, 2021), organizados por Flora Sussekind, e Bichos malvados, do inglês Roald Dahl, em parceria com a poeta Marília Garcia (Editora 34, 2021). A música também atravessa o trabalho dela: o cantor e compositor Vitor Ramil musicou poemas da autora no álbum Avenida Angélica (2022), e a cantora Juliana Perdigão gravou versos dela no disco Folhuda (2018). Da parceria das duas nasceu o duo Poesie und Musik (P.u.M.), com performances que misturam leitura e canção. Em Berlim, onde mora, a poeta participa do ciclo de leituras Probador de Poesías, ao lado da venezuelana Regina Riveros.
Outra frente são as oficinas de poesia, ministradas em espaços como a Biblioteca Mário de Andrade e a Livraria Baleia, além de unidades do Sesc em várias cidades. O trabalho com artistas visuais completa o percurso: a autora colaborou com Marcelo Cipis na exposição Enjoy (2021) e com o artista e escritor Nuno Ramos na peça Aos Vivos — Debate nº 2 — Antígona (2018).
O que ler de Angélica Freitas
A obra publicada permite diferentes portas de entrada, do livro de estreia ao quadrinho:
- Rilke shake (2007) — poesia de estreia, com ironia e referências pop;
- Um útero é do tamanho de um punho (2012) — o livro mais discutido da autora;
- Guadalupe (2012) — graphic novel com o ilustrador Odyr;
- Canções de atormentar (2020) — poemas de cadernos e revistas;
- Mostra monstra (2025) — plaquete de poemas e desenhos.
A poesia dela aparece ainda em antologias publicadas em países como Argentina, México, Estados Unidos, Alemanha, Espanha e Portugal, o que ajuda a explicar por que o nome circula tanto entre leitores de poesia quanto entre tradutores.






