Antônio Torres publicou em 1976 um romance que deu forma duradoura a um dos maiores movimentos migratórios internos do Brasil no século 20: Essa Terra, a travessia do sertanejo que deixa a roça nordestina rumo ao Sul industrial. O livro nasceu da experiência do próprio autor, que saiu de Junco, povoado de Sátiro Dias, no interior da Bahia, e chegou a São Paulo pelas redações e pela publicidade antes de viver de literatura.
Cinco décadas depois da estreia, sua obra reúne romances, contos e crônicas publicados em mais de 20 países. O reconhecimento institucional veio por etapas: o Prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras em 2000 pelo conjunto da obra, e a eleição para a cadeira 23 da mesma academia, em 2013, na sucessão de Luiz Paulo Horta. Desde 2015, ocupa também a cadeira 9 da Academia de Letras da Bahia, que pertenceu a João Ubaldo Ribeiro.
Quem é Antônio Torres
Nascido em 13 de setembro de 1940, no sertão da Bahia, Antônio Torres aprendeu a ler e a escrever na escola rural de sua região. Ainda menino, escrevia cartas para moradores da localidade, recitava poemas de Castro Alves na praça e acompanhava o padre nas missas em latim. Estudou em Alagoinhas e em Salvador, onde começou a carreira como repórter do Jornal da Bahia.
Aos 20 anos, transferiu-se para São Paulo e trabalhou no diário Última Hora. Na capital paulista, migrou para a publicidade e viveu três anos em Portugal. Do jornalismo ficou o hábito da apuração; da publicidade, a disciplina de escrever para ser lido. Casou-se com a professora e pesquisadora Sonia Torres, doutora em literatura comparada pela Universidade Federal Fluminense, com quem teve os filhos Gabriel e Tiago.
Depois de décadas dividido entre São Paulo e Rio de Janeiro, viveu 17 anos em Itaipava, distrito de Petrópolis, na região serrana fluminense, e voltou a residir no Rio de Janeiro, cidade que atravessa vários de seus romances.
Da reportagem à ficção: como a obra começou
O primeiro romance, Um Cão Uivando para a Lua, saiu em 1972 e foi recebido pela crítica como a revelação do ano. No ano seguinte veio Os Homens dos Pés Redondos, sátira sobre governos autoritários que confirmou o acerto da estreia e ganhou nova edição pela Record décadas mais tarde.
Foi com o terceiro livro que a literatura brasileira ganhou um de seus retratos mais persistentes da migração interna. Publicado em 1976, Essa Terra acompanha o retorno do nordestino que tentou a vida no Sudeste e volta ao lugar de origem sem encontrar o que deixara. O romance virou referência sobre êxodo rural e permanece como porta de entrada mais frequente na obra do autor.
Essa Terra, a trilogia do êxodo e a projeção internacional
Vinte e um anos depois, Antônio Torres retomou o fio do romance mais conhecido. Em O Cachorro e o Lobo (1997), narrador e protagonista voltam a Junco e encontram uma cidade transformada pela chegada do progresso. A edição francesa de Essa Terra, de 1984, abriu caminho para a carreira internacional; o segundo livro da série foi publicado na França em 2001.
Fechando o ciclo, Pelo Fundo da Agulha (2006) rendeu ao autor uma das vitórias do Prêmio Jabuti de 2007 e a indicação como finalista do Prêmio Zaffari & Bourbon. Em 2022, a Record reuniu os três romances no volume Trilogia Brasil, apresentando de uma só vez a sequência que ficou conhecida como a trilogia do êxodo.
A recepção no exterior acompanhou esse movimento: além das traduções, o governo francês condecorou Antônio Torres em 1998 com o título de Chevalier des Arts et des Lettres, por causa dos livros já publicados na França naquele momento, Essa Terra e Um Táxi para Viena d'Áustria.
Entre o sertão e a cidade: romances históricos e urbanos
A obra não ficou restrita ao interior nem ao passado recente. Em Meu Querido Canibal (2000), o autor reconstitui a trajetória do líder tupinambá Cunhambebe e as primeiras décadas da colonização, romance que venceu o Prêmio Zaffari & Bourbon de 2001 e recebeu, em 2015, o Selo Oficial dos 450 anos do Rio de Janeiro. Em O Nobre Sequestrador (2003), o tema é a invasão francesa de 1711, quando a cidade foi tomada durante 50 dias.
No outro extremo, Um Táxi para Viena d'Áustria (1991) e O Centro das Nossas Desatenções (1996) deslocam a narrativa para o espaço urbano. Com esses títulos e Meu Querido Canibal e O Nobre Sequestrador, o escritor compôs o conjunto que a crítica passou a chamar de tetralogia carioca. Já Querida Cidade (2021), seu 12º romance, retoma a juventude interiorana com referências cosmopolitas e recebeu resenha de destaque no jornal O Globo.
Cadeira 23: o lugar de Antônio Torres na Academia Brasileira de Letras
Antônio Torres foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 7 de novembro de 2013 e tomou posse em 9 de abril de 2014, recebido pela escritora Nélida Piñon. Passou a ocupar a cadeira 23, fundada por Machado de Assis e cujo patrono é José de Alencar, na linhagem que incluiu, entre outros, Jorge Amado, Zélia Gattai e Luiz Paulo Horta.
Na Academia de Letras da Bahia, ocupa desde 2015 a cadeira 9, antes de João Ubaldo Ribeiro. Também é membro da Academia Petropolitana de Letras, agremiação que o premiou pelo conjunto da obra em 2018.
O trabalho acadêmico do escritor não é apenas decorativo: em 2005, foi Escritor Visitante da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, quando ministrou oficinas literárias e proferiu palestras nos campi do Maracanã, de São Gonçalo e de Duque de Caxias. Integrou ainda duas vezes o júri do Prêmio Casa de las Américas, em Cuba, e participou do júri do Prêmio Camões em 1995, ano em que o vencedor foi José Saramago.
Prêmios e reconhecimento
A lista de distinções acompanha toda a trajetória, do primeiro romance à obra madura:
- Prêmio do Pen Clube do Brasil, em 1987, por Balada da Infância Perdida;
- Chevalier des Arts et des Lettres, concedido pelo governo francês em 1998;
- Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, em 2000, pelo conjunto da obra;
- Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura, em 2001, por Meu Querido Canibal;
- Prêmio Jabuti, em 2007, por Pelo Fundo da Agulha;
- Grande Prêmio Cidade do Rio de Janeiro, da Academia Carioca de Letras, em 2016;
- Prêmio Maestro Guerra Peixe, da Prefeitura de Petrópolis, em 2021.
Somam-se a eles o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Feira de Santana, em 2018, e traduções de romances e contos em mais de 20 países, da Argentina ao Vietnã.
Homenagens e presença na vida literária
Em Sátiro Dias, a cidade natal, a Biblioteca Pública Antônio Torres, fundada em 1991, ganhou sede própria em 2023. O autor também foi homenageado pelo Flipetrópolis, festival literário de Petrópolis, cidade onde viveu por quase duas décadas, e por festas literárias realizadas na Bahia em 2025.
Nos últimos anos, manteve presença constante em eventos e publicações. Na Academia Brasileira de Letras, participou de ciclos como "Vozes contemporâneas: a ficção" e de oficinas sobre o ofício de escrever, caso da atividade "A longa viagem em busca de um título", em que misturou palestra e oficina literária. Também colabora com jornais e revistas, assinando crônicas e ensaios.
Antônio Torres hoje e os 50 anos de Essa Terra
Em 2026, Essa Terra completou meio século. A data foi marcada por uma edição comemorativa do romance e por uma entrevista concedida na Academia Brasileira de Letras sobre a história do livro e sua permanência entre os leitores.
Quem procura o escritor encontra no site oficial um acervo organizado de resenhas, entrevistas, fotos, conferências e textos sobre a obra. A página reúne desde a bibliografia completa até material sobre o Rio de Janeiro e o sertão, os dois cenários que atravessam a produção de um autor que fez da migração entre eles a matéria central de sua literatura.






