No Colégio Central de Salvador, Glauber Rocha apelidou o colega de turma de “Hemingway da Bahia”. A brincadeira colou porque João Ubaldo Ribeiro já vendia redação por refrigerante e pastel — e porque, décadas depois, seria ele o romancista a traduzir a própria saga do Brasil para o inglês, ocupar a cadeira 34 da Academia Brasileira de Letras e ganhar o Prêmio Camões sem se apresentar como “homem de letras”. Na posse, preferiu o ofício mais antigo: contador de histórias.
Quem busca o nome hoje costuma chegar por três portas. Uma é o monólogo seco de Sargento Getúlio. Outra é a saga de Viva o Povo Brasileiro, que a Império da Tijuca levou para a avenida em 1987. A terceira é o palco: o monólogo de A Casa dos Budas Ditosos com Fernanda Torres, em cartaz com idas e vindas desde 2003. Em todas, a pergunta é a mesma — quem foi esse baiano de Itaparica que fez da língua portuguesa um território tão largo quanto a ilha em que nasceu.
Quem foi João Ubaldo Ribeiro
João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro nasceu em 23 de janeiro de 1941, na Ilha de Itaparica, e morreu em 18 de julho de 2014, no Leblon, no Rio de Janeiro, de embolia pulmonar. Foi romancista, contista, cronista, jornalista, roteirista e, por um período, professor de ciência política. A obra transita entre o sertão, a Bahia colonial e republicana, o erotismo, a crônica de jornal e o ensaio sobre poder.
Não se trata de um autor de um único livro famoso. O prestígio internacional começou cedo, com Sargento Getúlio (1971), e se consolidou com Viva o Povo Brasileiro (1984). No meio do caminho houve jornalismo diário, temporada na Alemanha, rádio, cinema com Cacá Diegues e a vida pública de imortal da ABL. O humor não era adorno: era método para mostrar o país pelo avesso, sem sermão e sem cartão-postal.
Itaparica, Aracaju e a formação baiana
Os primeiros meses foram na casa do avô materno, em Itaparica. Aos dois meses a família mudou-se para Aracaju, onde o menino passou a infância. O pai, Manuel Ribeiro, era advogado de nome na Bahia e fundou o curso de Direito da Universidade Católica de Salvador; a mãe, Maria Felipa Osório Pimentel, também era advogada. Havia dois irmãos, Sônia Maria e Manuel — e havia livros demais para o tamanho da casa, espalhados inclusive pela cozinha e pelo banheiro.
O pai não aceitava filho analfabeto. João Ubaldo Ribeiro começou com professor particular em 1947, passou pelo Instituto Ipiranga e, em 1951, entrou no Atheneu Sergipense. Prestava contas diárias do que tinha lido, resumia, traduzia trechos, estudava latim nas férias. Quando o pai, então chefe da Polícia Militar, sofreu pressão política, a família voltou a Salvador. Na capital baiana vieram o Colégio Sofia Costa Pinto e, em 1955, o curso clássico do Colégio da Bahia, o Central — onde a amizade com Glauber Rocha se formou para valer.
- Nascimento em Itaparica, em 23 de janeiro de 1941
- Infância em Aracaju e adolescência em Salvador
- Direito na Universidade Federal da Bahia, concluído em 1962, sem exercício da advocacia
- Mestrado em ciência política na University of Southern California, com bolsa, em 1964
- Docência de ciência política na UFBA, abandonada depois de seis anos em favor do jornalismo e da ficção
Jornalismo, universidade e a recusa do cartório
A estreia na imprensa foi em 1957, no Jornal da Bahia. Depois veio a Tribuna da Bahia, onde chegou a editor-chefe. Com Glauber, editou folhas culturais e participou do movimento estudantil. Entrevistou Aldous Huxley. Colaborou, ao longo da vida, em O Globo, O Estado de S. Paulo, A Tarde, no alemão Frankfurter Rundschau, no Die Zeit, no Times Literary Supplement e em jornais de Portugal. A crônica de domingo virou livro; o tom de conversa não escondia o juízo político.
Formado em Direito por imposição paterna, nunca advogou. Fez pós-graduação em administração pública na própria UFBA e, com bolsa da embaixada norte-americana, partiu em 1964 para o mestrado na Califórnia. Na ausência, a televisão baiana chegou a exibir sua foto com a palavra “Procura-se”. Voltou em 1965, lecionou ciência política por seis anos e largou a carreira acadêmica. O ensaio Política: quem manda, por que manda, como manda (1981) ficou entre os textos que ainda circulam em faculdade — raridade para quem já tinha escolhido a ficção como ofício principal.
Os livros que o colocaram no centro da língua portuguesa
A estreia em romance foi Setembro não tem sentido (1968), com prefácio de Glauber e o empurrão de Jorge Amado. O próprio autor, anos depois, chamou o livro de romance juvenil de quem ainda acreditava que podia mudar o mundo — e não o renegou. O salto veio com Sargento Getúlio, Prêmio Jabuti de revelação em 1972: um jagunço de Sergipe que recusa soltar o preso quando a ordem política muda, numa prosa oral, inventada e feroz. O próprio Ubaldo traduziu o livro para o inglês.
Viva o Povo Brasileiro, lançado em 1984, é a pedra maior. Escrito em grande parte na casa do avô em Itaparica, o romance cobre da invasão holandesa à ditadura militar, mistura orixás e oligarquia, escravidão e reencarnação, e ganhou o Jabuti de romance e o Golfinho de Ouro. A tradução inglesa, outra vez feita pelo autor, durou mais do que a escrita. Críticos o puseram ao lado das grandes sagas brasileiras do século XX — sem transformar o livro em manual de patriotismo.
O catálogo não para aí. O Sorriso do Lagarto (1989) mistura ambição, genética e litoral baiano e virou minissérie da Globo. A Casa dos Budas Ditosos (1999), volume da luxúria na série Plenos Pecados, foi retirado de algumas prateleiras e depois ganhou vida própria no teatro. Há ainda O feitiço da Ilha do Pavão, Diário do Farol, os contos de Vencecavalo e o outro povo, crônicas como Um brasileiro em Berlim e Arte e ciência de roubar galinhas, e livros para jovens. A Alfaguara e o grupo Companhia das Letras seguem reeditando o núcleo duro da obra em português.
Cinema, televisão e o palco que não envelheceu
Ubaldo não foi só adaptado: escreveu para a tela. Com Cacá Diegues, roteirizou Deus é Brasileiro a partir do conto “O santo que não acreditava em Deus” e aceitou o convite para o roteiro de Tieta do Agreste, o filme que Sônia Braga queria tirar de Jorge Amado. Sargento Getúlio virou filme de Hermano Penna em 1983, com Lima Duarte. O Sorriso do Lagarto chegou à Globo em 1991, com Tony Ramos, Maitê Proença e José Lewgoy. O conto também rendeu Caso Especial com Lima Duarte.
No teatro, o caso à parte é A Casa dos Budas Ditosos. Direção de Domingos Oliveira, Fernanda Torres no palco, estreia em 2003 e uma temporada que se mede em décadas, não em meses. Quem chega à escritora e atriz pelo cinema recente encontra, nesse monólogo, o ponto em que a prosa de Ubaldo virou corpo, voz e público de massa — sem deixar de ser o depoimento de uma libertina baiana que o autor descreveu como olhar pelo buraco da fechadura.
Academia Brasileira de Letras, Camões e a vida no Rio
Eleito em 1993 para a cadeira 34 da ABL, na vaga de Carlos Castello Branco, João Ubaldo Ribeiro foi recebido por Eduardo Portella em junho de 1994. No mesmo ano, na Feira do Livro de Frankfurt, recebeu o Prêmio Anna Seghers. Em 1987, Portugal o fez Comendador da Ordem do Mérito. Em 2008 veio o Camões, o maior prêmio da língua portuguesa: o júri falou em obra “especialmente densa das culturas portuguesa, africanas e dos habitantes originais do Brasil”. Foi o oitavo brasileiro a recebê-lo.
Depois de temporadas nos Estados Unidos, em Portugal — onde editou a revista Careta com Tarso de Castro — e na Alemanha, instalou-se de vez no Rio em 1991. A rotina de escrita era de madrugada: acordar cedo, três laudas por dia quando o livro estava em marcha, recusa a evento literário que desandasse o texto. Casou-se três vezes e teve quatro filhos, entre eles o ator Bento Ribeiro. Torcia pelo Vitória na Bahia e pelo Vasco no Rio. Em 2014, a prefeitura anunciou estátua na Praça Antero de Quental, no Leblon, o bairro onde circulava e onde morreu.
Por que ainda se lê João Ubaldo Ribeiro
Há quem chegue pelo vestibular, quem chegue pelo monólogo de Fernanda Torres, quem procure o Camões ou a minissérie dos anos 1990. O que segura a busca é outra coisa: uma prosa capaz de ser clássica e chula no mesmo parágrafo, de inventar fala sertaneja e de narrar quatro séculos sem transformar o povo em alegoria simpática. Na literatura brasileira do século XX, poucos misturaram tanto humor, história, sexo, política e invenção verbal sem pedir licença à gravidade acadêmica.
Ler João Ubaldo Ribeiro hoje é escolher por onde entrar nesse arquivo. Sargento Getúlio é o choque curto. Viva o Povo Brasileiro é a travessia longa. A Casa dos Budas Ditosos é o desvio erótico que virou fenômeno de palco. O Sorriso do Lagarto é o Brasil da ciência, da ambição e da costa. Em qualquer dessas portas, o que se encontra não é um baiano de vitrine: é um escritor que passou a vida contando o país como quem não acredita em fato puro — só em história bem contada.





